
O aparato de proteção em torno do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça sofreu um forte reajuste nos últimos meses. A cúpula do Judiciário adotou a medida protetiva depois que uma análise técnica interna identificou um aumento real de risco à integridade física do magistrado. O alerta acendeu quando ele assumiu a relatoria do caso que investiga fraudes bilionárias ligadas ao Banco Master.

Dois casos, um mesmo risco
De acordo com informações publicadas pela Folha de S.Paulo, o reforço também tem relação com outro inquérito de grande repercussão sob a relatoria de André Mendonça: a investigação sobre desvios e fraudes em descontos de aposentados e pensionistas do INSS. Ambos os casos envolvem autoridades do mundo político com foro privilegiado.
A combinação dos dois inquéritos nas mãos do mesmo ministro é o que explica a magnitude da resposta de segurança. O caso Master investiga um esquema bilionário de fraude e lavagem de dinheiro com conexões a integrantes do sistema financeiro, do Judiciário e do mundo político. O caso INSS apura o maior esquema de descontos indevidos da história da Previdência Social brasileira, com tentáculos que chegam ao círculo de relações do filho do presidente Lula. Ser relator simultâneo dessas duas investigações coloca Mendonça na mira de interesses poderosos e diversos, de diferentes espectros políticos — o que, segundo a análise técnica de segurança, eleva objetivamente o risco à sua integridade física.
Como funciona o reforço: presença ostensiva e agentes à paisana
A reestruturação promovida pela Secretaria de Polícia Judicial ampliou o número de policiais dedicados à rotina do ministro. A nova dinâmica adiciona o uso de equipamentos de proteção específicos e um monitoramento minucioso de ameaças. O aparato ostensivo passou a acompanhar André Mendonça em seus compromissos no tribunal, no Tribunal Superior Eleitoral — do qual é vice-presidente — e em agendas institucionais externas.
A escolta também monitora de perto as atividades civis do ministro. Ele atua como professor universitário e como pastor na Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo. Agentes de segurança designados, inclusive servidores à paisana, agora acompanham o magistrado durante as pregações religiosas para mitigar qualquer vulnerabilidade.
O detalhe da proteção durante os cultos religiosos é revelador da extensão da medida: normalmente, a segurança institucional de um ministro do STF se concentra nas atividades públicas e oficiais do cargo. Estender essa proteção a atividades pessoais e religiosas — incluindo agentes à paisana, ou seja, disfarçados, sem uniforme visível, para não chamar atenção nem alterar o ambiente da congregação — indica que a avaliação de risco identificou vulnerabilidades também fora do expediente formal do ministro.
O gatilho: a milícia “A Turma”
A preocupação com a integridade do ministro cresceu consideravelmente desde o início de 2026. Em março, André Mendonça decretou a segunda prisão preventiva de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
A decisão ocorreu depois que a Polícia Federal interceptou mensagens no celular do banqueiro. Os textos revelaram a existência de uma milícia privada mantida por Vorcaro. Batizada de “A Turma”, a estrutura armada coagia e ameaçava desafetos da família.
A descoberta de uma milícia privada armada operando sob o comando de um banqueiro investigado é, por si só, um dos elementos mais graves já revelados no escândalo do Banco Master. O fato de essa estrutura ter sido criada para “coagir e ameaçar desafetos da família” Vorcaro implica que o grupo tinha disposição e capacidade operacional para intimidação por meios violentos — exatamente o tipo de informação que levaria qualquer análise de segurança institucional a tratar como prioritária a proteção do ministro responsável por decidir o destino jurídico dessa mesma família e de sua rede.
Uma decisão técnica, não política
Embora a segurança institucional revise e estude periodicamente o cenário de riscos das autoridades, o teor violento descoberto nas investigações do caso Master forçou a cúpula administrativa a acelerar as medidas de proteção extrema no entorno de Mendonça.
A frase é importante para entender a natureza da decisão: a segurança das autoridades do STF passa por avaliações de rotina, independentemente de qualquer caso específico. O que ocorreu neste episódio foi uma aceleração emergencial dessas medidas, motivada por uma descoberta concreta — não por uma suspeita genérica, mas pela confirmação de que existia, de fato, uma estrutura armada vinculada a um dos principais investigados pelo ministro.