Delação de Vorcaro atinge esquerda: nova proposta cita presidente do União Brasil e PT da Bahia

PF nega acordo de delação de Vorcaro

A nova proposta de delação premiada apresentada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, preso e ex-CEO do Banco Master, amplia consideravelmente o espectro político dos alvos citados. A nova proposta de delação de Daniel Vorcaro aponta pagamentos para o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, e para integrantes do PT da Bahia. A versão atualizada foi entregue pela defesa na semana passada à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República, que agora analisam o material.

O que é uma delação premiada e como funciona

A delação premiada — tecnicamente chamada de acordo de colaboração premiada — é um instituto jurídico previsto na Lei nº 12.850/2013 que permite ao investigado ou réu fornecer informações à autoridade policial ou ao Ministério Público em troca de benefícios na pena, como redução, cumprimento em regime aberto ou até extinção da punibilidade. Para que o acordo seja homologado e os benefícios concedidos, as informações precisam ser eficazes — ou seja, precisam levar ao esclarecimento de crimes, à identificação de outros envolvidos, à recuperação de ativos ou à prevenção de novos delitos. Uma “proposta de delação” é a fase em que o investigado e seus advogados apresentam à PF e à PGR o que têm a oferecer, antes que um acordo formal seja celebrado e homologado pelo tribunal responsável. No caso de Vorcaro, o tribunal é o STF, sob relatoria do ministro André Mendonça.

Antônio Rueda e o União Brasil: repasses pelo escritório de advocacia

Em relação a Rueda, segundo fontes que tiveram acesso ao material, os repasses milionários teriam sido feitos pelo Banco Master por meio do escritório de advocacia ligado ao cacique partidário. Rueda é considerado um dos responsáveis pela indicação da antiga diretoria do Rioprevidência, fundo dos servidores do estado que fez aportes bilionários em papéis e fundos ligados ao Banco Master.

O Rioprevidência é o fundo que administra os recursos de aposentadoria e pensão dos servidores públicos do estado do Rio de Janeiro. A suposta conexão entre Rueda, a indicação da diretoria do fundo e os investimentos bilionários do fundo em ativos do Banco Master é uma das linhas de investigação mais sensíveis do caso — porque sugere um possível esquema de propina para garantir que recursos públicos de servidores fossem alocados em produtos financeiros do banco.

Publicamente, Rueda nega qualquer irregularidade. O cacique diz não ter relação pessoal com Vorcaro, mas admite ter prestado serviços advocatícios para o Banco Master por meio de seu escritório. A admissão de que o escritório prestou serviços ao banco é relevante: ela confirma a existência de uma relação contratual, ainda que Rueda conteste que essa relação seja irregular.

O PT da Bahia e o Credcesta

Em relação ao PT baiano, a proposta de delação de Vorcaro menciona pagamentos que teriam sido realizados como contrapartida à operação do programa Credcesta pelo Banco Master no estado. O Credcesta é um cartão de benefício consignado voltado para servidores públicos ativos e aposentados e cujos pagamentos das faturas são descontados diretamente em folha. O Banco Master passou a operar o Credcesta na Bahia entre os anos 2018 e 2022. Na época, o estado era governado por Rui Costa (PT), ex-ministro da Casa Civil no terceiro mandato de Lula.

O modelo descrito na delação é estruturalmente semelhante ao que as investigações já identificaram em outros estados: um banco obtém o direito de operar um programa de crédito consignado para servidores públicos estaduais — um produto extremamente lucrativo pela garantia de desconto em folha —, e os pagamentos a agentes políticos são a contrapartida por essa concessão.

Rui já negou publicamente ter relações próximas com Vorcaro. Ele disse que esteve com o banqueiro apenas uma única vez em agenda institucional e defendeu as investigações sobre o Caso Master.

Ciro Nogueira e Cláudio Castro: a mudança de versão

A delação de Vorcaro também cita supostos pagamentos ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) e ao ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL). Na nova proposta, o banqueiro aderiu às versões da PF e passou a tratar as benesses pagas por ele a Ciro e a Castro como propina, e não mais apenas como amizade, como sustentava até então.

A mudança de versão de Vorcaro sobre Ciro Nogueira e Cláudio Castro é juridicamente significativa. Em delações, o termo “propina” tem peso legal específico: implica que o pagamento foi feito em troca de uma contrapartida de uso do cargo público, não como presente ou despesa de cortesia entre conhecidos. Ao alterar sua narrativa e adotar a terminologia usada pela Polícia Federal, Vorcaro alinha suas declarações ao que a PF já apurou — um movimento que pode facilitar a homologação do acordo, mas que também aumenta consideravelmente a gravidade das acusações para os citados.

A interlocutores, Castro tem negado qualquer recebimento de propina e desafiado Vorcaro a provar o que diz na delação. Ciro também nega irregularidades.

O mapa político do escândalo Master

O conjunto de citações da nova delação de Vorcaro compõe um mapa político de abrangência incomum: o presidente do União Brasil, integrantes do PT na Bahia, um senador do PP e um ex-governador do PL. Em outras palavras, o escândalo Master não respeita fronteiras partidárias — ele atravessa governo e oposição, direita e esquerda, conectando líderes que publicamente se apresentam como adversários políticos. É exatamente esse caráter transversal que torna o caso tão politicamente explosivo num ano eleitoral: qualquer campo que tente usar o escândalo Master como arma contra o adversário corre o risco de ser atingido pelo ricochete da mesma delação.

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