
A decisão do governo de Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras jogou luz internacional sobre uma realidade que as forças de segurança brasileiras conhecem há anos: as duas maiores facções criminosas do país transformaram Minas Gerais num dos corredores mais importantes do narcotráfico nacional. A reportagem do Metrópoles revela a dimensão dessa expansão, os territórios dominados, as operações policiais em curso e os impactos concretos da nova classificação americana.
Por que Minas Gerais virou corredor do tráfico
O Comando Vermelho, oriundo do Rio de Janeiro, e o PCC, de São Paulo, intensificaram sua presença em Minas Gerais nos últimos anos. O estado tornou-se corredor estratégico para drogas — cocaína e maconha vindas do Norte — e armas, devido à sua posição geográfica entre São Paulo, Rio de Janeiro e as rotas amazônicas.
O governador de Minas, Mateus Simões, explicou com precisão a lógica geográfica por trás dessa vulnerabilidade. São Paulo, vizinho de Minas, é sede do PCC, e o CV tem sua base no Rio de Janeiro, também ao lado de MG. Minas ainda faz divisa com a Bahia — que segundo Simões foi tolerante ao longo de décadas com a presença do crime organizado — e com o Espírito Santo, que enfrenta dificuldades para garantir o domínio de seu território. “Essa realidade regional tem transformado Minas Gerais em um corredor estratégico para o tráfico”, afirmou o governador. Minas tem parceria com o estado de Goiás para impedir o intenso trânsito de traficantes e armas que atravessam o estado, servindo como rota para escoar drogas e armamentos que saem do Nordeste para o Sudeste, do Sul e do Paraguai com destino ao litoral.
A expansão das facções: onde atuam no estado
O Comando Vermelho tem forte presença na Zona da Mata — especialmente em Juiz de Fora, Ubá e Cataguases —, no Vale do Mucuri, com destaque para Teófilo Otoni, em aliança com a facção local FTO, e em Governador Valadares. A facção também vem expandindo sua presença em Belo Horizonte, com atuação no Aglomerado da Serra, no Barreiro e na Vila Cemig. Já o PCC atua no Triângulo Mineiro, no Sul de Minas, na Grande BH e no interior, disputando território com o CV e com grupos locais como o TCP — Terceiro Comando Puro.
A guerra em Belo Horizonte após a ruptura entre as facções
Em Belo Horizonte, a ruptura da aliança nacional entre PCC e CV, ocorrida em abril de 2025, acendeu uma guerra por territórios. Disputas explodiram no Aglomerado da Serra — a maior favela da capital —, no Barreiro, na Pedreira Prado Lopes e em outros locais da região metropolitana, com invasões, tiroteios e execuções envolvendo CV, PCC e TCP contra facções locais menores. Moradores relatam tensão constante, pichações de facções sinalizando ocupação de território e ocupações policiais para conter o avanço.
O alerta do especialista: interiorização e mais de 40 mil membros
O delegado André Santos Pereira, especialista em Inteligência Policial e Segurança Pública, presidente da ADPESP e diretor de Estudos da ADEPOL-BR, alerta para a gravidade dessa expansão: “Temos o fenômeno claro de interiorização dessas facções. Elas estão dominando espaços no interior dos estados, conflagrando áreas, controlando não apenas as rotas de tráfico, mas também atividades lícitas, aplicando sanções a comerciantes locais, criando barreiras e, muitas vezes, impedindo a entrada do próprio Estado.”
O especialista ressalta que o PCC conta com mais de 40 mil integrantes batizados — número significativamente superior aos dados oficiais. “Não temos um número cravado porque o ingresso nessas organizações não é um processo legítimo. Sua influência é enorme tanto dentro quanto fora do sistema carcerário, com forte atuação em atividades ilícitas e na lavagem de dinheiro. Isso demonstra uma capacidade de organização e capilaridade que preocupa as forças de segurança.”
As megaoperações policiais em resposta
A Operação Ícaro III, deflagrada em maio de 2026, foi a maior ofensiva contra o Comando Vermelho na Zona da Mata. Cumpriu mais de 200 mandados, resultou em 49 prisões e bloqueou R$ 8,4 milhões em bens. A operação mirou a hierarquia, o fluxo financeiro e o controle de ao menos cinco bairros em Juiz de Fora. Antes, em setembro de 2025, uma operação contra CV e FTO resultou em 48 prisões, 84 buscas e bloqueio de R$ 18 bilhões em bens, com ações em Minas, Amazonas, Rio de Janeiro e Espírito Santo.
Os números da segurança pública de Minas mostram a dimensão do esforço: de janeiro a novembro de 2025 foram retiradas mais de 12 mil armas de circulação; a Polícia Civil concluiu 23,4 mil procedimentos por tráfico, crescimento de 26,8% em relação a 2024, e incinerou mais de 11,9 toneladas de drogas. Crimes violentos caíram 21,2% no período, mas homicídios ligados a disputas faccionadas subiram em áreas periféricas de BH.
A classificação americana e seus efeitos práticos
Em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado americano designou PCC e CV como “Terroristas Globais Especialmente Designados”, com vigência como Organizações Terroristas Estrangeiras a partir de 5 de junho. A medida permite congelar ativos no sistema financeiro dos EUA, proibir qualquer apoio material — dinheiro, armas, logística — por cidadãos e empresas americanas, e reforçar a cooperação internacional em investigações. As facções também passaram a integrar oficialmente a lista de entidades sancionadas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros — o OFAC —, órgão vinculado ao Departamento do Tesouro dos EUA. Nos registros do OFAC, PCC e CV aparecem classificados como “Grupo Terrorista Transnacional” e “Organização Criminosa”.
Para as operações do PCC e do CV em Minas Gerais especificamente, a classificação americana tem implicações financeiras concretas. A lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas no estado frequentemente passa por circuitos internacionais — criptoativos, dolarização de recursos e contas no exterior. Com a nova designação, qualquer banco que opere em dólares e detecte transações ligadas às facções é obrigado a bloqueá-las e reportá-las ao Tesouro americano, estreitando os canais de circulação dos recursos.