
Jason Miller, aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou as redes sociais neste sábado (31 de maio) para rebater declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a decisão do governo americano de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Na publicação, Miller escreveu que Lula deveria “chorar mais”. O ex-conselheiro de Trump também escreveu “womp womp” na legenda — expressão usada na internet para debochar de reclamações ou demonstrar indiferença diante da frustração de alguém. O termo remete ao som de um “trombone triste”.
Quem é Jason Miller
Jason Miller não é um nome qualquer dentro do universo de Trump. Ele é um dos assessores e porta-vozes mais próximos do presidente americano, com décadas de atuação no Partido Republicano e um papel central nas campanhas eleitorais de Trump em 2016, 2020 e 2024. Miller é co-fundador do GETTR, plataforma de redes sociais da direita americana, e figura frequente nos principais canais de comunicação do trumpismo. Sua manifestação nas redes sociais sobre assuntos ligados ao Brasil não é casual — ela reflete o tom que o governo Trump tem adotado em relação ao governo Lula desde o início do segundo mandato do republicano.
O que disse Lula que motivou a resposta
Na sexta-feira (30 de maio), durante agenda em Sergipe, Lula criticou o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, chamando-o de “traidor”. A declaração ocorreu após o parlamentar viajar a Washington para encontros com autoridades americanas.
Lula também criticou publicamente a decisão americana de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas, argumentando que a medida pode abrir espaço para possíveis interferências dos Estados Unidos no território brasileiro — o mesmo argumento que o governo federal vinha usando desde que o Departamento de Estado anunciou a medida na quinta-feira (28). A resposta de Miller foi imediata e sem qualquer sutileza diplomática.
O tom de deboche e o que ele revela
O “womp womp” e o “chora mais” de Jason Miller são, na superfície, manifestações típicas da cultura política americana de redes sociais — provocativas, informais e projetadas para repercutir entre apoiadores. Mas, num contexto diplomático, o tom do comentário é extraordinariamente agressivo para vir de alguém tão próximo ao presidente dos EUA. Significa que, do ponto de vista do campo trumpista, o Brasil de Lula não é tratado como um parceiro a ser respeitado, mas como um adversário a ser derrotado — e que as críticas do governo brasileiro à política americana são vistas como reclamações sem fundamento, dignas de escárnio, não de diálogo.
A sequência que levou ao impasse
A troca de farpas é o ponto mais recente de uma escalada que ganhou velocidade ao longo desta semana. O senador Flávio Bolsonaro se reuniu esta semana com o presidente norte-americano Donald Trump, na Casa Branca, e admitiu ter pedido a Trump que classificasse as facções brasileiras como organizações terroristas. Na quinta-feira (28), dias após o encontro, a Casa Branca anunciou que de fato incluiria as duas facções na lista de grupos terroristas. A medida desagrada o governo Lula, que alega que pode abrir espaço para possíveis interferências dos EUA no território brasileiro.
Em menos de uma semana, o Brasil assistiu a uma sequência sem precedentes: um pré-candidato da oposição visitou Washington, foi recebido por Trump no Salão Oval, pela vice-presidência e pelo Secretário de Estado, pediu pessoalmente medidas de política externa americana contra organizações brasileiras, viu essas medidas serem anunciadas em menos de 48 horas, voltou ao Brasil celebrando o resultado como uma vitória pessoal — e agora assiste ao governo federal ser publicamente ridicularizado por aliados do presidente americano quando tenta contestar a decisão.
A fragilidade da posição brasileira
O episódio revela uma assimetria de poder e de narrativa que o governo Lula tem dificuldade em contornar. Qualquer resposta mais dura ao governo Trump corre o risco de ser interpretada como defesa indireta do PCC e do CV — exatamente a narrativa que Flávio Bolsonaro está construindo. Qualquer recuo, por outro lado, equivale a aceitar que o governo de uma potência estrangeira pode ser mobilizado pela oposição interna para pressionar e constranger o governo brasileiro no campo diplomático.
O deboche de Miller funciona como um acelerador dessa armadilha: ao ridicularizar as preocupações de Lula em público, o aliado de Trump reforça a imagem de um governo brasileiro impotente diante da articulação da direita com Washington — e faz isso num tom que dificilmente pode ser respondido com instrumentos da diplomacia tradicional. Para o Itamaraty, que ainda não havia se manifestado formalmente sobre a classificação das facções, o cenário se torna ainda mais delicado. Para a campanha de Flávio Bolsonaro, é exatamente o clima que seus estrategistas queriam criar às vésperas das eleições de outubro de 2026.