Com apenas 2 ministros do STF e metade das inscrições, “Gilmarpalooza” de 2026 é o mais esvaziado da história — e o erário bancará ao menos 135 servidores

Gilmarpalooza não será afetado pelo caso Master, diz Gilmar

O 14º Fórum Jurídico de Lisboa, apelidado de “Gilmarpalooza” nos bastidores de Brasília, abre nesta segunda-feira (1º de junho) em Portugal como o evento mais esvaziado desde a sua criação — ao mesmo tempo em que se torna a edição mais cara e restritiva de sua história. O paradoxo é sintomático de um momento político delicado para o ministro do STF Gilmar Mendes, organizador do encontro, e revela o impacto crescente do escândalo do Banco Master sobre a dinâmica de poder no Judiciário e no Congresso brasileiros.

O que é o “Gilmarpalooza” e como ele funcionou nos anos anteriores

O apelido “Gilmarpalooza” surgiu nas redes sociais e em círculos políticos como uma referência ao gigantismo do encontro, em alusão ao festival de música Lollapalooza, porque o fórum reúne anualmente centenas de autoridades dos Três Poderes, além de empresários, acadêmicos, integrantes de escritórios de advocacia e representantes do setor financeiro e regulatório.

O evento é promovido pelo IDP — Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa —, instituição do próprio Gilmar Mendes, administrada em parceria com seu filho, Francisco Mendes. Ao longo dos anos, o fórum se consolidou como um dos principais pontos de articulação informal entre o Judiciário, o Executivo, o Legislativo e o setor privado brasileiro — só que em solo português, longe do escrutínio direto da imprensa e dos órgãos de controle nacionais.

O esvaziamento em números

A diferença entre as edições anteriores e a de 2026 é gritante. Em 2025, foram cinco ministros do STF, 18 do STJ, cinco do TCU e de 20 a 50 parlamentares, incluindo o então presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira. A última edição atraiu cerca de 150 autoridades e 2.500 inscritos.

Para este ano, não há previsão da presença dos presidentes do Congresso Nacional nem de ministros do governo Lula. No Supremo, apenas Flávio Dino confirmou presença, além do próprio Gilmar. No ano passado, Alexandre de Moraes e André Mendonça também foram ao evento, assim como Luís Roberto Barroso, que era presidente da corte. Hoje aposentado, ele deve ir a esta edição.

Caiu pela metade o número de magistrados do STJ confirmados de 2025 para 2026. Auxiliares de Gilmar no IDP e na FGV também intensificaram os chamamentos para fechar a lista de palestrantes. Até o momento, a edição deste ano tem 1.500 inscrições.

A estrutura que cresce enquanto o prestígio encolhe

Num aparente paradoxo, a edição de 2026 é simultaneamente a mais esvaziada e a mais ambiciosa em termos de estrutura. O evento ocorrerá entre os dias 1º e 3 de junho, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, com o tema “Nova ordem internacional, tecnologia e soberania: desafios democráticos, econômicos e sociais”. De acordo com os organizadores, serão 71 painéis distribuídos em sete espaços simultâneos da universidade, além de mais de 450 palestrantes e moderadores ao longo dos três dias de programação.

Entre os confirmados estão os ministros do STF Alexandre de Moraes e Flávio Dino, além do anfitrião Gilmar Mendes, o ex-presidente da Corte Luís Roberto Barroso e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. A presença de Moraes — que semanas antes havia sido notificado por e-mail pela Justiça americana no processo movido pela Rumble e pela Trump Media — é um elemento adicional de atenção política ao evento.

O dinheiro público bancando a viagem

O contribuinte brasileiro vai bancar as passagens e diárias de pelo menos 135 autoridades e funcionários públicos para o Fórum de Lisboa. A informação foi revelada pelo jornal Folha de S.Paulo, que identificou os avais em diários oficiais e páginas da transparência. O custeio pelo erário da participação de servidores num evento privado organizado por um ministro do próprio STF em Portugal é um dos pontos mais sensíveis da polêmica e alimenta o debate sobre os limites entre o exercício do cargo público e os privilégios que o acompanham.

Os três fatores que provocaram o esvaziamento

O fenômeno é atribuído a uma combinação de fatores: o impacto do escândalo envolvendo o Banco Master, a pressão por um novo código de ética proposto pelo presidente do STF, Edson Fachin, e conflitos de agenda com o calendário do Poder Judiciário.

O caso Master é o mais direto. Investigações da Polícia Federal apontaram que o banqueiro Daniel Vorcaro — alvo do principal inquérito que tramita sob relatoria de Mendonça no STF — teria bancado despesas de luxo de autoridades brasileiras no exterior, incluindo em agendas paralelas ao Fórum de Lisboa em edições anteriores. Com esse contexto, comparecer ao evento passou a representar um risco de imagem difícil de justificar, especialmente para quem tem qualquer vínculo com as investigações.

O segundo fator é o debate aberto por Fachin sobre um código de conduta para ministros do STF. Um dos pontos sensíveis de eventual código seria a transparência na participação de magistrados em eventos custeados por terceiros ou que envolvam convivência com agentes econômicos e políticos com interesses no tribunal. Com essa discussão em curso, a presença no “Gilmarpalooza” passou a ser vista como um passivo de imagem — e não mais como um ativo de prestígio.

O que o esvaziamento revela sobre o momento político

O próprio ministro Gilmar Mendes telefonou para magistrados nos últimos dias para reforçar os convites, tentando blindar o fórum do esvaziamento político depois de o escândalo do Banco Master e as cobranças de ética feitas por Fachin azedarem o clima no Judiciário.

O resultado final é revelador: aquilo que por anos foi tratado como uma agenda institucional de prestígio — um encontro entre as mais altas autoridades brasileiras e europeia em solo lusitano — passou a ser visto como um passivo político, sobretudo num momento em que o país debate os limites entre o exercício do cargo público e os privilégios que o acompanham, e em que o Banco Master colocou sob escrutínio as relações entre o sistema financeiro, o Judiciário e o poder político no Brasil. O “Gilmarpalooza” de 2026 começa com metade das inscrições, dois terços menos de ministros do STF e o erário pagando a conta de 135 servidores — uma combinação que dificilmente passará despercebida no debate político dos próximos meses.

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