
Os suspeitos de articular o maior furto virtual já registrado no Brasil estão em liberdade provisória na Espanha desde 16 de janeiro porque o governo brasileiro não entregou os documentos de extradição no prazo limite, que venceu em 5 de janeiro.
O crime: o maior ataque hacker da história do Pix
A Justiça espanhola concedeu liberdade provisória ao suposto mandante do desvio de R$ 800 milhões de contas mantidas no Banco Central em junho de 2025, Ítalo Jordi Santos Pireneus, e a mais sete suspeitos. Além de Ítalo Jordi, chamado de “Breu do Pix”, foram soltos os outros três membros do núcleo que, segundo a PF, articulou o crime ocorrido em 30 de junho de 2025: Henrique Magnavita Lins, o Russo; Mateus Medeiros Silva; e Wesley do Nascimento Lopes, o Spider. Eles respondem por furto qualificado, lavagem de dinheiro e associação criminosa.
Para entender a dimensão do crime: o Pix opera por meio de contas chamadas de liquidação, mantidas por instituições financeiras no Banco Central, que funcionam como uma reserva para garantir que as transações dos clientes sejam honradas em tempo real. Os hackers conseguiram invadir essa infraestrutura e desviar recursos diretamente dessas contas de liquidação — não das contas dos clientes comuns, mas do sistema de garantia por trás de cada transação.
Os valores foram embaralhados em múltiplas contas em 29 instituições financeiras até chegar ao estudante de medicina Patrick Zanquetim, suspeito de apagar a origem do dinheiro. Zanquetim enviou as quantias para uma corretora de criptomoedas no exterior, fez outra série de transações com criptoativos e devolveu o dinheiro aos suspeitos no Brasil em troca de uma comissão. Os autos indicam que os suspeitos conseguiram converter cerca de R$ 600 milhões em criptomoedas e que parte dos valores não foi recuperada.
Como os suspeitos fugiram do Brasil
Breu, que é paraense e domiciliado em Goiânia, fugiu do Brasil quando estava com o passaporte retido devido a uma prisão domiciliar por estelionato e falsificação de documento. Cinco dias após comandar o maior ataque hacker já registrado no Brasil, de dentro de um quarto de hotel em Brasília, ele deixou o país junto com a esposa e o irmão, viajando em um jato fretado. O voo partiu do Aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia, parou em Curitiba e desembarcou em San Fernando, na Argentina. Breu conseguiu emitir um novo passaporte na Argentina e usou o documento para viajar à França em 29 de julho, deslocando-se depois para Valência, na Espanha.
Russo e Spider deixaram o Brasil em 4 de julho, em voo comercial de Guarulhos para a Alemanha, cuja passagem foi comprada no mesmo dia. Não há registros de como chegaram à Espanha.
A falha burocrática que libertou os suspeitos
A lei espanhola determina que o auto de prisão preventiva extradicional tem duração máxima de 80 dias, contados desde o dia da publicação do documento. Os 80 dias começaram a contar em 14 de outubro, quando a Justiça pediu que as autoridades espanholas prendessem os suspeitos. O prazo final para o governo brasileiro entregar a documentação era, portanto, 5 de janeiro.
E-mails arrolados nos autos do processo mostram que houve um erro do Ministério da Justiça. O departamento responsável pelas extradições pediu que o Tribunal de Justiça de São Paulo encaminhasse toda a documentação — incluindo a tradução para espanhol — até o dia 10 de janeiro, quando o prazo já estava esgotado. O pedido considerava erroneamente que o governo teria até 19 de janeiro para entregar os documentos. Os autos indicam que a PF iniciou o processo de extradição no mesmo dia em que os suspeitos foram presos, mas os documentos só foram entregues às autoridades espanholas em 19 de janeiro.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou que não comenta casos específicos, reiterando que “cumpre rigorosamente todos os trâmites legais, administrativos e diplomáticos previstos para a análise de pedidos de extradição”. O Itamaraty também não comentou.
O que acontece agora
Embora todos os suspeitos estejam em liberdade, os pedidos de extradição ainda correm na Espanha. A prisão só pode ocorrer novamente se o governo brasileiro entregar um novo mandado de prisão — e sua tradução — para as autoridades espanholas, segundo especialistas. Isso ainda não ocorreu.
A advogada de Breu afirma que seu cliente está com passaporte retido, cumprindo outras medidas cautelares impostas pela Justiça espanhola e à disposição das autoridades brasileiras. Os suspeitos já impetraram diversos habeas corpus no STJ, questionaram a constitucionalidade da investigação no STF e foram representados por advogados de peso, como o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot. Todos os pedidos de liminar no Brasil foram negados até o momento.
A PF havia localizado os suspeitos ao quebrar o sigilo das contas de criptoativos que receberam as transferências via Pix. Nos nomes dos investigados foram identificados apartamentos em endereços nobres em Goiânia e em Balneário Camboriú, além de fazendas na Bahia e em Angola, na África. Breu possui fotografias com um Porsche Macan avaliado em cerca de R$ 400 mil, e Russo é dono de uma Lamborghini Urus avaliada em cerca de R$ 3 milhões.