Deolane Bezerra é presa suspeita de ser “caixa” do PCC; investigação revela 35 empresas abertas no mesmo endereço de casa popular

Deolane Bezerra é presa sob suspeita de ligação com o PCC - 21/05/2026 -  Cotidiano - Folha

A influenciadora e advogada Deolane Bezerra foi presa nesta quinta-feira (21) pela Polícia Civil de São Paulo. Em coletiva de imprensa, os investigadores afirmaram que ela é suspeita de integrar um esquema ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). De acordo com o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, um dos principais alvos da facção há pelo menos 20 anos, Deolane passou a ser investigada após a apreensão de bilhetes manuscritos dentro do sistema prisional.

A operação envolveu interlocução entre o Ministério Público de São Paulo, a Promotoria de Justiça da Itália e agentes da Interpol. Deolane estava na Itália e seria presa em território europeu, mas acabou detida no Brasil porque voltou antes do que previam as autoridades brasileiras. Seu nome já constava em uma lista de procurados da Interpol antes da deflagração da operação.

As 35 empresas e a “pejotização do crime”

A investigação descobriu que Deolane chegou a abrir 35 empresas num endereço em Martinópolis, no interior de São Paulo, onde havia uma casa popular. A polícia não informou a quem pertencia a residência. A sobreposição de empresas num mesmo local não é necessariamente ilícita, mas pode revelar indícios da prática criminosa. Além das empresas em Martinópolis, a influenciadora também mantinha outros CNPJs em outros locais — dois deles em Santo Anastácio, também no interior, e outros em Ribeirão Preto.

O promotor Lincoln Gakiya classificou o esquema como “pejotização do crime organizado” e defendeu maior rigor no controle de abertura de empresas: um passo inicial estaria na implementação de uma pesquisa prévia sobre o endereço do estabelecimento em vias de ser registrado, ou no cruzamento de dados para verificar outras irregularidades.

Como funciona a lavagem de dinheiro por empresas de fachada

Para entender o caso, é importante compreender o mecanismo investigado. A lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada consiste em criar CNPJs formalmente registrados que, na prática, não exercem atividade econômica real. O dinheiro oriundo de crimes — como o tráfico de drogas ou extorsões — é injetado nessas empresas como se fosse receita legítima de prestação de serviços ou vendas. Ao passar por esse processo, os recursos ganham uma aparência de legalidade e podem ser usados livremente para adquirir bens, imóveis, veículos ou simplesmente circular no sistema financeiro. Abrir múltiplas empresas no mesmo endereço amplifica essa capacidade, diluindo os valores e dificultando o rastreamento pelas autoridades.

O papel de Deolane na investigação

De acordo com os investigadores, Deolane teria atuado como uma espécie de “caixa do crime organizado”, misturando recursos ilícitos a receitas provenientes de atividades empresariais e da própria imagem pública. “Nós entendemos ao longo da investigação, em parceria com o Ministério Público, que a Deolane, até pelo poder econômico que ela adquiriu ao longo do tempo e pela sua influência, funciona como uma espécie de caixa do crime organizado”, afirmaram os investigadores.

A investigação começou em 2019, após a apreensão de bilhetes e manuscritos dentro da Penitenciária II de Presidente Venceslau, em posse de dois detentos. Os documentos continham informações sobre a estrutura interna da facção, ordens de lideranças e possíveis articulações contra agentes públicos. A partir desse material, a Polícia Civil instaurou uma série de inquéritos para aprofundar a investigação.

A Polícia Civil notou a menção a uma “mulher da transportadora”, que teria feito um levantamento de endereços de servidores públicos para auxiliar no planejamento de ataques do PCC, e chegou a uma transportadora, o que deu início à segunda etapa da investigação. Batizada de Operação Lado a Lado e deflagrada em 2021, a operação revelou a utilização da transportadora como braço financeiro do PCC, além de movimentações financeiras incompatíveis e crescimento econômico sem lastro.

Os resultados da operação

A operação, conduzida pela Polícia Civil e pelo Gaeco, resultou em seis prisões preventivas, bloqueio de mais de R$ 327 milhões, sequestro de 17 veículos de luxo e quatro imóveis ligados aos investigados. Além de Deolane, foram presos Everton de Souza, apontado como operador financeiro da organização, e Paloma Camacho, sobrinha de Marcola, detida na Espanha. Na casa de Everton, a polícia apreendeu uma caixa com o nome da influenciadora que continha dinheiro em espécie.

A resposta de Deolane

A defesa de Deolane afirmou que ainda não teve acesso aos autos, já que o processo corre em segredo de Justiça. Nas redes sociais, Deolane publicou uma carta em que diz ser vítima de perseguição e injustiça: “Estou passando aqui para tranquilizá-los e afirmar mais uma vez que estou sofrendo uma grande injustiça. É notório o preconceito e a perseguição contra minha pessoa e minha família, mas isso tudo servirá para provar mais uma vez para todos vocês que não pratico e nunca pratiquei crimes.”

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