
Vieira de Mello Filho abriu sessão de segunda-feira afirmando que declaração foi tirada de contexto e que surgiu como resposta ao ministro Ives Gandra Filho; os dois travaram bate-boca de mais de 30 minutos em plenário, com acusações cruzadas e menção ao “Terceiro Reich”
O presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, dividiu os juízes trabalhistas em “azuis” e “vermelhos” durante discurso no encerramento do 22º Congresso Nacional da Magistratura do Trabalho (Conamat), na sexta-feira, 1º de maio, em Brasília. O evento reuniu mais de 300 participantes para discutir o impacto da inteligência artificial nas relações de trabalho.
O que disse o presidente do TST — e como viralizou
No discurso, Mello Filho declarou: “Não tem juiz azul nem vermelho. Sou do tempo em que todos nós, com os nossos diferentes pensamentos, trabalhamos para o desenvolvimento, fortalecimento e crescimento da Justiça do Trabalho.”
Em seguida, porém, reforçou: “Eu diria que não tem azul ou vermelho. Tem quem tem interesse, tem quem tem causa. Nós vermelhos temos causa, não temos interesse. E que fique bem claro isso para quem fica divulgando isso aqui no País.” Ao complementar o enunciado, reafirmando que tem uma causa — a defesa da instituição e das pessoas vulneráveis — Mello Filho foi aplaudido pela plateia.
Vídeos divulgados em redes sociais mostraram apenas o trecho final do discurso de mais de 50 minutos, no qual o presidente do TST se incluiu entre os “vermelhos” que estariam a serviço de uma “causa”. A declaração foi interpretada como referência à polarização entre defensores do governo do PT — simbolizado pela cor vermelha — e a oposição, que pelo contexto seriam os “azuis”.
A justificativa na segunda-feira: “fui tirado de contexto”
O presidente do TST tentou explicar os termos na abertura da sessão desta segunda-feira, 4 de maio, afirmando que a fala foi tirada de contexto. O magistrado disse que a declaração foi uma resposta ao ministro Ives Gandra Martins Filho, que já havia usado a expressão em um curso voltado a advogados.
“Ninguém tem o direito de me acusar de ser ativista ou não ser. Eu tenho a prova documentada de onde começou isso e eu tenho certeza que o ministro Ives Gandra, na sua dignidade, não vai dizer que não começou neste evento, primeiro encontro, de como atuar no Tribunal Superior do Trabalho”, afirmou.
“É por isso que eu me manifesto expressamente para que toda a população saiba: não sou um juiz parcial. Eu tenho 40 anos de história como magistrado e eu sei o que a comunidade jurídica pensa a meu respeito. Podem não gostar de uma coisa ou outra, mas sabem que eu sempre decido com a técnica e com a minha maneira de interpretar a Constituição e as leis do País, especialmente a CLT”, prosseguiu.
O bate-boca de 30 minutos com Ives Gandra
Ministros do TST se desentenderam em plenário nesta segunda-feira após a repercussão do vídeo. A polêmica envolveu o presidente Vieira de Mello Filho e o ministro Ives Gandra Filho, com trocas de acusações sobre ataques “internos” à Justiça do Trabalho. A discussão durou mais de trinta minutos.
Ives Gandra admitiu a existência de uma “divisão interna” no tribunal, mas rebateu a conotação moral dada pelo presidente. “Depois da primeira aula que dei nesse curso, disseram: ‘essa expressão divide colegas entre cores’. Se isso é ofensivo, deixo de fazer. Mas a realidade não pode ser escondida. Há ministros que têm uma visão mais liberal e há ministros que têm uma visão mais intervencionista”, reforçou.
Gandra se queixou do posicionamento do colega e disse que membros da Corte se sentiram ofendidos pela distinção moral entre quem “tem causa” e quem “tem interesse”. “A sua excelência fez um juízo moral. Acusa, como se eu estivesse defendendo interesses ou vendendo sentenças, defendendo os interesses do capital”, disse.
A menção ao “Terceiro Reich”
Em sua réplica, Vieira de Mello leu trechos de um discurso atribuído a Gandra no curso oferecido a advogados, em que o ministro teria comparado sua atuação no TST à de alguém que age “por dentro do Terceiro Reich”. “É preciso conhecer internamente as instituições, assim como já se falou sobre o Terceiro Reich. Vou por dentro do Terceiro Reich aqui e por dentro do TST. Eu sou legalista”, teria dito Gandra, conforme leitura feita por Vieira de Mello.
O presidente do TST também questionou a ética do curso organizado por outro ministro da Corte para ensinar advogados a litigar no tribunal, com inscrições pagas. “Se isso não é um conflito ético, não sei mais o que seria. Com inscrição de advogados a custo alto — e aqueles que não podiam pagar o custo, como ficam?”, comentou.
“Cor de rosa”: o desfecho inusitado
Para tentar encerrar a polêmica, o presidente do TST se autodeclarou “cor de rosa”, simbolizando a mistura de “azul com vermelho”. “Ninguém aqui tem rótulo. Com que direito vossa excelência pode rotular alguém dessa forma?”, questionou. A ministra Maria Cristina Peduzzi pediu o fim da discussão.