
Das dez capitais com maior alta na cesta básica do país, seis são nordestinas; Recife registrou aumento de quase 10% apenas no primeiro trimestre — quase o dobro da inflação prevista para todo o ano; aprovação de Lula cai justamente entre os mais pobres da região
A inflação no Nordeste, principal reduto eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, supera as previsões nacionais e corrói o poder de compra da população mais vulnerável do país. Das dez capitais brasileiras com maior alta no preço da cesta básica, seis estão localizadas na região nordestina.
Recife lidera as altas: quase 10% em apenas três meses
No Recife, a cesta básica atingiu R$ 654,62, com alta de 9,82% entre janeiro e março — quase o dobro da previsão de inflação para todo o ano (4,86%) aferida no boletim Focus do Banco Central. Em São Paulo, o reajuste médio da cesta básica foi de 4,49% no mesmo período, segundo o Dieese.
O rosto humano do problema
Há um ano morando em João Pessoa, na Paraíba, a professora Priscila da Silva, de 33 anos, começa a rever contas que há pouco tempo fechavam com mais facilidade. Ela trocou o Rio por uma cidade mais barata, mas nos últimos meses sentiu seu custo de vida subir. “O mercado é o que tem ficado mais caro, especialmente carnes e laticínios. Se antes gastava R$ 400, agora gasto R$ 500, R$ 550. Para driblar essa alta, busco promoção, compro frutas da época e marcas intermediárias. Lazer está mais caro. Uma água de coco custava R$ 3 quando cheguei, agora custa R$ 6.”
Os alimentos que mais subiram
Segundo o IBGE, nos 12 meses encerrados em março de 2026 houve uma alta de 2,16% na categoria de alimentos, revertendo sete meses de desaceleração. Os produtos que mais subiram foram tomate (45,4%), feijão carioca (28,1%) e batata (14%).
A percepção de alta de preços dos alimentos nos mercados atingiu 72% em abril — o maior nível desde julho de 2025, segundo a pesquisa Quaest/Genial Investimentos. Ela cresceu com mais força entre aqueles que ganham até dois salários mínimos, passando de 56% em dezembro para 72%.
O impacto maior sobre quem menos tem
Segundo Maria Andréia Lameiras, técnica de planejamento e pesquisa do Ipea, a inflação em março, que foi a maior desde fevereiro de 2025, afetou desproporcionalmente as classes baixas e médias-baixas.
Como o Nordeste tem a menor renda domiciliar per capita do país, o impacto é ainda maior e se soma ao alto endividamento das famílias.
“Além de reduzir o salário real das pessoas de baixa renda, que gastam 22% da renda em alimentos, há uma percepção mais geral de que a alimentação tem impactado bastante o orçamento mensal da família”, afirma o pesquisador Luiz Guilherme Schymura, do FGV Ibre.
A renda disponível no menor nível desde 2011
Apesar de dados positivos no emprego, a renda disponível das famílias após gastos com itens essenciais, impostos e pagamento de dívidas encontra-se no nível mais baixo desde 2011.
Os que afirmaram que seu poder de compra caiu em relação ao ano passado subiram de 64% em março para 71% em abril. A XP Investimentos reviu para cima sua projeção de inflação para alimentos e bebidas consumidos no domicílio em 2026, passando de 4,2% para 5,3%.
O peso político: aprovação cai justamente no Nordeste
Mesmo entre os mais pobres com renda familiar mensal até dois salários mínimos — que tendem a ser mais favoráveis a Lula — a taxa de ruim/péssimo subiu de 24%, em dezembro de 2024, para 33%, em abril. No mesmo período, o percentual avançou de 22% para 27% no Nordeste, sua fortaleza eleitoral.
A contradição é política: apesar do mercado de trabalho robusto, a inflação de alimentos corrói o poder de compra das classes baixas e médias-baixas — a base eleitoral tradicional do governo Lula.