
O Sul do Brasil vive uma virada meteorológica brusca nesta quinta-feira (2 de julho): após dias de temporais intensos que deixaram seis municípios catarinenses em situação de emergência, destelharam casas, formaram um tornado no Paraná e acumularam mais de 100 milímetros de chuva em diversas regiões, uma nova massa de ar polar avança pelo continente, afasta as instabilidades e derruba os termômetros. As chuvas têm data para dar trégua — e o frio intenso, já confirmado para os próximos dias, é o preço da melhora no tempo.
A semana que ficou para trás: granizo, emergências e um tornado
A virada climática desta semana chega depois de uma sequência de eventos extremos que atingiu o Sul entre o final de junho e o início de julho. Temporais com granizo do tamanho de um ovo varreram o Norte e o Planalto Serrano catarinense entre a noite de terça (30 de junho) e a madrugada de quarta (1º de julho), deixando 340 residências atingidas e mais de 400 pessoas desalojadas apenas em Santa Catarina. No Paraná, registros de supercélulas atmosféricas resultaram na formação de pelo menos um tornado. O Rio Uruguai transbordou e colocou cidades gaúchas em alerta máximo de inundação. Em Blumenau, a Defesa Civil registrou mais de 30 ocorrências e emitiu alerta para deslizamentos.
O que é uma supercélula e por que ela é especialmente perigosa
Uma supercélula é um tipo específico e raro de tempestade com rotação interna — uma corrente de ar ascendente que gira em torno de seu próprio eixo, chamada de meso-ciclone. Essa rotação é o que diferencia uma supercélula de uma tempestade convencional e o que a torna capaz de produzir granizo de grandes dimensões, rajadas de vento destrutivas e, nos casos mais intensos, tornados. A formação de supercélulas no Sul do Brasil está associada ao encontro entre ar quente e úmido proveniente da Amazônia e ar frio de origem polar — exatamente o padrão que caracterizou a semana meteorológica encerrada agora pela nova massa de ar polar.
Quando as chuvas cessam: quinta e sexta como linha divisória
A intensificação do ar frio começa a ser sentida durante a tarde desta quinta-feira (2), quando as temperaturas entram em declínio em boa parte da Região Sul. No Rio Grande do Sul, os termômetros não devem ultrapassar os 15°C já na tarde de quinta. Santa Catarina também começa a sentir a queda, registrando uma tarde de clima ameno que contrasta com o calor úmido que precedeu os temporais.
As chuvas mais persistentes devem recuar progressivamente a partir da madrugada de sexta-feira (3), com a massa de ar polar assumindo o controle do tempo sobre a região e bloqueando a entrada de umidade atlântica que alimentava as instabilidades dos últimos dias. A mudança ocorre de forma mais rápida no Rio Grande do Sul e mais gradual em Santa Catarina, onde o litoral ainda pode registrar nebulosidade e chuvisco residual até a manhã de sexta.
O frio que vem pela frente: -5°C na Serra e geadas generalizadas
A nova massa de ar polar trará temperaturas muito baixas ao Sul do Brasil a partir da madrugada de sexta-feira (3). No Rio Grande do Sul, há previsão de temperaturas abaixo de 0°C na Campanha Gaúcha e em municípios das regiões central e sul do estado, aumentando o alerta para geadas generalizadas. A Serra Gaúcha também terá mínimas baixas.
Em Santa Catarina, a Serra será o ponto de maior rigor: a previsão é de temperaturas se aproximando ou atingindo 0°C nas áreas mais elevadas durante a madrugada de sexta. No sábado (4), os termômetros poderão registrar entre -2°C e -5°C nos pontos mais altos da Serra Gaúcha e da Serra Catarinense, com forte risco de geadas generalizadas nos três estados da Região Sul e possibilidade de neve nas regiões mais altas.
No Paraná, o sudoeste do estado também entra no mapa de risco de geada, com mínimas previstas próximas de 2°C no sábado. Nem Porto Alegre escapa: a capital gaúcha deve registrar máxima de apenas 12°C no sábado, numa das tardes mais frias que a cidade deve ter neste inverno.
Um inverno que tende a ficar mais intenso
A alternância acelerada entre temporais com granizo, tornado, enchentes e depois frio intenso com geadas é consistente com o padrão previsto para um inverno com El Niño moderado a forte em formação. A confirmação do fenômeno pela NOAA no início de junho — com 63% de probabilidade de atingir intensidade muito forte, com pico previsto entre novembro e janeiro — indica que o Sul do Brasil deve continuar enfrentando essa sucessão de eventos extremos em intervalos cada vez mais curtos ao longo da estação.
Para a população que vive em áreas de risco — especialmente em encostas e margens de rios que acabaram de receber grandes volumes de chuva —, o solo saturado após os temporais da semana passada representa um risco adicional mesmo com a melhora do tempo: solos encharcados são mais suscetíveis a deslizamentos mesmo diante de chuvas de menor intensidade nas semanas seguintes. A recomendação das defesas civis é manter o monitoramento ativo e estar atento a qualquer sinal de movimentação do terreno nas próximas semanas, mesmo que o tempo aparente melhora.