
A candidata conservadora Keiko Fujimori foi eleita presidente do Peru nesta segunda-feira (29 de junho), depois de derrotar Roberto Sánchez, de esquerda, no segundo turno da eleição presidencial, realizado três semanas antes, em 7 de junho. Com a vitória, a líder do Fuerza Popular chega ao Palácio do Governo em sua quarta tentativa presidencial.
O resultado final, após semanas de apuração tensa
Com 100% das atas contabilizadas pelo órgão responsável pela organização e contagem dos votos no Peru, Keiko obteve 50,135% dos votos válidos, contra 49,865% de Sánchez. A diferença entre os dois candidatos ficou abaixo de 50 mil votos.
O resultado confirma a margem apertadíssima que caracterizou toda a apuração desde o dia da votação — uma disputa marcada por sucessivas reviravoltas, em que a liderança trocou de mãos diversas vezes ao longo de três dias até finalmente se estabilizar a favor de Keiko, impulsionada principalmente pelos votos da diáspora peruana no exterior, onde a candidata teve desempenho dominante. As mais de 1.400 atas “em observação” — que precisaram passar por recontagem com presença de fiscais e observadores — explicam por que o resultado definitivo só foi confirmado quase três semanas após a votação.
Quatro tentativas: a trajetória eleitoral de Keiko
A eleição marca o desfecho de uma trajetória eleitoral iniciada em 2011. Naquele ano, Keiko, então candidata do Fuerza, avançou ao segundo turno, mas perdeu para Ollanta Humala depois de obter aproximadamente 48% dos votos válidos, contra cerca de 51% do adversário.
Cinco anos depois, em 2016, Keiko voltou a disputar a Presidência pelo mesmo partido. Na ocasião, liderou o primeiro turno com aproximadamente 39,8% dos votos, mas foi derrotada no segundo turno por Pedro Pablo Kuczynski por uma das menores margens da história política recente do país: 49,8% contra 50,1%.
Em 2021, a política voltou ao segundo turno, desta vez contra Pedro Castillo. A disputa também terminou de forma apertada. Keiko obteve cerca de 49,8% dos votos, enquanto Castillo alcançou aproximadamente 50,1%, com diferença final de cerca de 44 mil votos.
Agora, em 2026, Keiko rompe a sequência de derrotas e alcança a Presidência depois de liderar o primeiro turno com cerca de 17% dos votos, o equivalente a 2,8 milhões de eleitores. Ela assumirá a Presidência em 28 de julho.
O padrão histórico das três derrotas de Keiko é notável: em todas elas, a margem final ficou abaixo de 2 pontos percentuais — derrotas de cabelo, sempre por uma fração mínima do eleitorado. A vitória de 2026, com 50,135% contra 49,865%, repete exatamente essa margem apertadíssima, mas desta vez a favor da candidata, encerrando 15 anos de tentativas e quase-vitórias.
As propostas de governo
Durante a campanha de 2026, Keiko concentrou sua plataforma em segurança pública, combate ao crime e retomada da estabilidade institucional. Entre as principais promessas estiveram a construção de presídios de segurança máxima, expansão de sistemas de videomonitoramento com inteligência artificial, bloqueio de sinais de celular em prisões e atuação conjunta das Forças Armadas e da Polícia Nacional no enfrentamento ao crime organizado.
Na economia, a presidente eleita defendeu redução de burocracia, incentivos ao investimento privado, responsabilidade fiscal e medidas para acelerar projetos de mineração legal. Também prometeu ampliar programas de telemedicina, reforçar políticas sociais e endurecer o controle migratório, incluindo expulsão de estrangeiros em situação irregular ou com antecedentes criminais.
O legado do fujimorismo
Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o Peru de 1990 a 2000, Keiko é descrita como a principal herdeira política do pai. Ela lidera o Fuerza Popular desde a fundação da legenda. Antes das disputas presidenciais, ela foi eleita congressista por Lima com mais de 600 mil votos, número apontado como recorde à época.
Ao longo da última década, consolidou-se como principal liderança do chamado fujimorismo, corrente política associada ao legado do pai. Entre os elementos frequentemente relacionados ao período do governo do ex-presidente estão a estabilização econômica e o combate à guerrilha Sendero Luminoso.
Alberto Fujimori — que faleceu em setembro de 2024, aos 86 anos — governou o Peru com um misto de resultados econômicos e sociais considerados positivos por seus apoiadores e um histórico condenado de violações de direitos humanos, incluindo esterilizações forçadas em massa de mulheres indígenas e o fechamento autoritário do Congresso em 1992. A vitória de Keiko representa, portanto, a consolidação eleitoral de um legado profundamente controverso e divisor na história recente do país.
A instabilidade institucional que marca o Peru
A eleição ocorre em meio a um período de instabilidade política no Peru. Em dez anos, o país teve nove presidentes, cenário marcado por renúncias, impeachments, conflitos entre Executivo e Congresso e sucessivas crises institucionais. Entre os episódios recentes está a tentativa do então presidente Castillo de dissolver o Congresso, em 2022, movimento que antecedeu sua destituição. O país também enfrentou mudanças frequentes no comando do Executivo, além do uso recorrente do mecanismo de “incapacidade moral permanente”, instrumento utilizado pelo Congresso peruano para remover presidentes do cargo.
Keiko Fujimori assume a Presidência num país que precisa urgentemente de estabilidade institucional após quase uma década de turbulência política contínua. Com a vitória mais apertada de sua trajetória eleitoral — e numa eleição que levou quase três semanas para ter resultado definitivo —, a nova presidente herda também o desafio de governar um Congresso historicamente hostil a qualquer Executivo, num país onde nenhum presidente eleito desde 2016 conseguiu concluir o mandato sem enfrentar uma grave crise institucional. Sua posse está marcada para 28 de julho de 2026.