
A Polícia Federal informou ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que precisará de mais tempo para analisar o material relacionado a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, no âmbito da Operação Sem Desconto, que investiga fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social.
Entre as diligências pendentes está a avaliação da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático do filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, autorizada pelo ministro em fevereiro.
Por que a quebra de sigilos é uma etapa central da investigação
A quebra de sigilo bancário, fiscal e telemático é um dos instrumentos mais poderosos disponíveis para investigações criminais. Ela permite que os investigadores acessem todo o histórico de movimentações financeiras, declarações de imposto de renda e comunicações eletrônicas — mensagens, e-mails, registros de chamadas — de uma pessoa investigada. No caso de Lulinha, esses materiais são a peça-chave para verificar se houve repasse de dinheiro do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, ao filho do presidente — um dos elos mais sensíveis da investigação, porque conectaria o maior escândalo de fraude previdenciária da história do Brasil diretamente ao círculo familiar do chefe do Executivo.
O prazo cobrado por Mendonça e a resposta da PF
Mendonça havia determinado que a PF concluísse, em até 60 dias, a perícia de celulares, computadores, HDs, pen drives e demais equipamentos apreendidos com investigados presos e alvos de medidas restritivas. O ministro cobrou maior agilidade por considerar lenta a condução da investigação.
Em resposta encaminhada ao STF no último dia 9, a corporação informou que conseguirá concluir, em até 30 dias, a análise dos materiais apreendidos com os presos da operação. Já a perícia dos equipamentos recolhidos dos demais investigados deverá levar até seis meses.
A distinção entre as duas categorias de investigados é relevante: os presos — como o Careca do INSS — já têm seus materiais sendo analisados em ritmo mais acelerado. Os demais investigados, entre os quais Lulinha se enquadra por não estar preso, terão seus equipamentos periciados num prazo muito mais longo — até seis meses —, o que significa que os resultados mais sensíveis para o entorno do presidente podem só chegar em dezembro de 2026, já depois das eleições de outubro.
O déficit de pessoal: 11 policiais onde deveriam ser mais de 40
A Polícia Federal atribuiu a demora à falta de efetivo. Segundo a corporação, apenas 11 servidores atuam na investigação, embora sejam necessários mais de 40. A PF também informou que concluiu cerca de 40% da análise dos aproximadamente 1.700 itens apreendidos.
O dado é revelador: a investigação do maior esquema de fraude previdenciária da história brasileira — com prejuízo estimado em mais de R$ 6,3 bilhões — conta com menos de um terço do efetivo que a própria Polícia Federal considera necessário para conduzi-la adequadamente. A combinação de 1.700 itens apreendidos com apenas 11 investigadores explica matematicamente por que a análise de equipamentos dos investigados não presos pode levar até seis meses.
As mudanças que preocupam Mendonça
Além de cobrar rapidez na perícia, André Mendonça determinou que a PF mantivesse a equipe responsável pela investigação e apresentasse justificativas sempre que promovesse alterações no grupo. O ministro avalia que as trocas contribuíram para retardar a conclusão da operação.
Apesar da determinação, a corporação informou que o delegado responsável pela Operação Sem Desconto precisou deixar a investigação para retornar à sua região de origem. Antes disso, a PF retirou o inquérito da Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários e o transferiu para a Coordenação de Inquéritos em Tribunais Superiores.
A decisão surpreendeu o então chefe da divisão, delegado Guilherme Figueiredo Silva. A PF justificou a mudança afirmando que a nova coordenação possui estrutura mais adequada para conduzir investigações de maior complexidade em tramitação no STF. As alterações alimentaram críticas da oposição, que passou a levantar suspeitas de proteção a Lulinha.
A delação que está no impasse e o foragido que não foi localizado
Outro ponto ainda pendente envolve a nova tentativa de acordo de colaboração premiada do empresário Maurício Camisotti, negociada desde o início de maio entre a defesa, a PF e a Procuradoria-Geral da República. A primeira proposta chegou ao STF, mas a PGR determinou que as negociações recomeçassem do zero por entender que não participou das tratativas. Apesar do impasse, investigadores consideram a colaboração do empresário a mais avançada entre os investigados que demonstraram interesse em firmar um acordo.
A PF também ainda não informou ao gabinete de Mendonça o resultado das buscas por Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais, considerado foragido. Apontado como líder e idealizador do esquema de fraudes na entidade, Lopes teve a prisão preventiva decretada por Mendonça em novembro. Levantamento da Controladoria-Geral da União mostra que a Conafer registrou R$ 484 milhões em descontos sobre aposentadorias de 2019 a 2024, o segundo maior volume entre as entidades investigadas.