
O senador Jaques Wagner (PT-BA) admitiu manter uma relação pessoal com o empresário Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, mas negou que a proximidade tenha resultado em favorecimento pessoal. O parlamentar deu as declarações em entrevista divulgada nesta sexta-feira (26 de junho) no jornal Folha de S.Paulo.
Na entrevista, o petista detalhou encontros com Vorcaro, explicou a negociação de um apartamento destinado à filha e afirmou que reclamou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva da forma como a Polícia Federal conduziu a operação da qual virou alvo.
A demissão da liderança do governo no Senado
O contexto imediato da entrevista é o afastamento de Wagner da liderança do governo no Senado após ser alvo da nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de junho. A operação, autorizada pelo ministro André Mendonça, cumpriu mandados de busca e apreensão no endereço do senador e apreendeu dinheiro em espécie — cenas que circularam amplamente nos noticiários. Lula indicou a senadora Teresa Leitão para substituir Wagner na liderança.
A crítica à “espetacularização” da PF
Ao falar da Operação Compliance Zero, Wagner criticou a divulgação da imagem das cédulas de dinheiro apreendidas durante as buscas. Segundo o senador, a exposição contrariou a própria decisão judicial que determinava discrição no cumprimento dos mandados. “Para que aquela patacoada de dinheiro em cima da cama com o escudo da PF?”, perguntou Wagner. “Esse processo era comum na Lava Jato. Se a Polícia Federal vai continuar nesse tipo de espetacularização, acho que o chefe da Polícia Federal tem de tomar conta. Aí, quem tem de cuidar disso é o ministro da Justiça, o chefe da Polícia Federal ou o próprio ministro André Mendonça.”
A crítica de Wagner à “espetacularização” é um recurso retórico que os alvos de operações policiais frequentemente usam para desviar o foco do conteúdo investigado para a forma como as diligências foram conduzidas. A comparação com a Lava Jato é especialmente carregada: o PT sempre criticou o que chamava de “teatro midiático” das operações comandadas pelo então juiz Sérgio Moro em Curitiba. Ao repetir essa crítica agora, Wagner alinha sua defesa ao repertório histórico do partido — e reconhece, implicitamente, a semelhança entre as duas situações.
Wagner reclamou a Lula da PF
Segundo Wagner, Lula também o indagou mais de uma vez sobre eventual envolvimento no caso Master. “O presidente várias vezes me perguntou, e continuo afirmando para ele: não tem nenhuma relação comercial entre mim e Augusto Lima, muito menos com o Master”, afirmou.
O fato de o senador revelar que Lula o questionou “várias vezes” sobre o caso indica que o próprio presidente estava monitorando a situação com atenção — e que a relação entre os dois, embora mantida, passou por momentos de tensão interna não divulgados até então.
A relação com Augusto Lima: “óbvio que conversei”
Na entrevista, Wagner confirmou que conheceu Augusto Lima durante o processo de privatização da Cesta do Povo, na Bahia, e que a convivência entre ambos se manteve ao longo dos anos. “Eu poderia ter uma consultoria, não poderia?”, perguntou Wagner. “Não tenho. A Polícia Federal está construindo uma tese de que essa empresa da minha nora na verdade foi construída para me servir. Não tenho nada a ver com a empresa.”
Na sequência, Wagner disse desconhecer “um prefeito ou um governador que não converse com empresários”. “Óbvio que conversei com Augusto Lima”, acrescentou.
Wagner criticou o que chamou de “retórica hipócrita”, ao comentar o avanço das investigações da PF. “Tenho relação com uma porção de gente”, lembrou. “Aí, o cara diz para mim: na terça-feira, estou indo para Brasília, quer ir de carona? Vou, qual o problema? Fica-se criminalizando qualquer tipo de relacionamento. Óbvio que de vez em quando pego carona.”
Os dois encontros com Vorcaro e a indicação de Lewandowski
Ao ser indagado sobre Vorcaro, Wagner afirmou que o encontrou apenas duas vezes. A primeira delas ocorreu quando o ex-banqueiro ingressou no Master. A segunda foi em São Paulo, quando apresentou o então ex-ministro Ricardo Lewandowski a Vorcaro para discutir uma possível consultoria jurídica. “O Augusto Lima disse: ‘A gente precisa melhorar o padrão do banco. Você tem alguma sugestão para a área jurídica?’. Eu disse: ‘O ministro Lewandowski tem pouco tempo que se aposentou, não vejo outro nome melhor. Não sei se ele quer’.”
A revelação de que Wagner intermediou uma possível consultoria de Ricardo Lewandowski ao Banco Master é um dado novo e sensível: Lewandowski, ex-presidente do STF e ex-ministro da Justiça no governo Lula, não havia sido mencionado anteriormente nas investigações. A intermediação, mesmo que não tenha resultado em contratação, amplia o mapa de conexões políticas em torno do Banco Master.
O apartamento para a filha e os R$ 3,5 milhões à empresa da nora
Wagner também comentou a negociação de um apartamento em Salvador. Segundo ele, o imóvel seria comprado para a filha e nunca chegou a integrar seu patrimônio. “Pretendia dar um presente para minha filha nesse prédio que está em construção”, disse. “A pergunta que cabe é a seguinte: por que você pediria para reservar um apartamento num prédio em construção se fosse para corrupção? Por que não ia pegar um apartamento novo pronto?”
Sobre os pagamentos de R$ 3,5 milhões feitos pelo Master à empresa da qual sua nora é sócia, o senador disse que essa é uma pergunta que “só a PF poderia responder”. Afirmou que as operações estão registradas na empresa e negou que os valores tivessem como destino sua pessoa. “Caiu alguma coisa minha aqui?”, perguntou. “Estou muito tranquilo.”
Ao ser indagado se não tinha conhecimento do montante, Wagner disse ter tomado “um susto, porque não é pouca coisa, é muita coisa”. “Mas repare: é muita coisa legalmente, tem contrato.” “Aliás, os meninos dizem que não pagaram nem o que deveriam ter pago a eles, tá?”, disse Wagner. “Quando viram um volume que ia crescendo muito, mudaram o tipo de contrato. Mas prefiro que o advogado explique.”