Vereador petista de São Paulo tem prisão mantida após audiência de custódia por suspeita de lavar dinheiro do PCC por meio de empresa de ônibus

Vereador do PT é preso em SP por envolvimento com empresa de ônibus ligada  ao PCC - Estadão

A Justiça de São Paulo manteve, nesta sexta-feira (26 de junho), a prisão do vereador Senival Moura (PT). Ele é investigado por suposta participação em um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital. A decisão saiu durante a audiência de custódia realizada um dia depois da operação da Polícia Civil.

Quem é Senival Moura e o que ele alegou antes da prisão

Senival Moura é vereador pelo PT na Câmara Municipal de São Paulo, o maior legislativo municipal do Brasil. Antes da operação que resultou em sua prisão, o parlamentar tinha alegado à Justiça situação de pobreza — o que contrasta com os indícios levantados pela investigação, que o aponta como principal beneficiário de um esquema de desvios financeiros em uma concessionária de transporte público.

O esquema investigado: controle oculto de empresa de ônibus

Os investigadores sustentam que o parlamentar exercia o controle oculto da concessionária Transunião Transportes S.A., responsável por operar linhas de ônibus na zona leste da capital paulista. Segundo a investigação, a empresa teria servido para movimentar recursos atribuídos à facção criminosa.

O conceito de “controle oculto” é relevante juridicamente: ele significa que uma pessoa exerce poder de fato sobre uma empresa sem aparecer formalmente como sócio, administrador ou representante legal. Essa estrutura é frequentemente usada em esquemas de lavagem de dinheiro porque dificulta a identificação do verdadeiro dono dos recursos — que circulam pela empresa como se fossem receitas legítimas da atividade empresarial, sendo depois retirados limpos pelo controlador oculto.

A origem da investigação: um assassinato em 2020

As apurações começaram em 2020, com a investigação do assassinato de Adauto Soares Jorge, então presidente da Transunião. Durante o inquérito, o Ministério Público e a Polícia Civil identificaram indícios de que a empresa recebeu recursos do crime organizado por meio de um aumento de capital. Os valores passaram de R$ 100 mil para R$ 50 milhões entre 2015 e 2019.

Um aumento de capital de R$ 100 mil para R$ 50 milhões em quatro anos é um sinal clássico de lavagem de dinheiro: recursos de origem ilícita são introduzidos numa empresa legítima disfarçados de aporte dos sócios, permitindo que o dinheiro circule como se fosse capital empresarial regular. No caso da Transunião, o salto de 500 vezes no capital social sem explicação comercial óbvia chamou a atenção dos investigadores e abriu o caminho para apurar a origem dos recursos.

O papel do PCC e o motivo do assassinato

Segundo os investigadores, um núcleo paralelo administrava a estrutura financeira da concessionária e destinava recursos a integrantes do PCC. A investigação também atribui a Senival Moura a condição de principal beneficiário de desvios financeiros descobertos pela facção. Conforme a Polícia Civil, esse conflito teria motivado o assassinato do então presidente da empresa.

O inquérito também registra que o vereador teria escapado de ser morto porque se comprometeu a devolver os valores desviados. Outro documento cita que ele utilizou a Transunião para operacionalizar um sistema financeiro clandestino e abrir espaço para a atuação da organização criminosa dentro da empresa.

A narrativa construída pela investigação é de uma disputa interna pelo controle dos recursos: Senival Moura teria desviado dinheiro que o PCC considerava seu, o que gerou o conflito que resultou no assassinato do presidente da empresa — e o próprio vereador teria escapado de ser morto ao prometer devolver o que havia desviado. Essa versão, se confirmada, coloca o parlamentar não apenas como lavador de dinheiro, mas como alguém que entrou em conflito direto com a organização criminosa por disputar os recursos que fluíam pela empresa.

Os bloqueios e apreensões determinados pela Justiça

A decisão que autorizou a operação também determinou o bloqueio de R$ 194 milhões em contas bancárias dos investigados e da concessionária. Além do sequestro de 117 veículos, 21 imóveis e três embarcações.

O bloqueio de R$ 194 milhões e o sequestro de 117 veículos, 21 imóveis e três embarcações revelam a escala do patrimônio supostamente construído com recursos do esquema. Os veículos são provavelmente ônibus e caminhões da própria concessionária; os imóveis e as embarcações representam o patrimônio pessoal e empresarial que a Justiça entende como produto ou instrumento da lavagem investigada.

Os outros presos e a intervenção na empresa

Além de Senival Moura, a Justiça manteve as prisões de Jair Ramos de Freitas, conhecido como “Cachorrão”. A investigação o identificou como diretor informal da empresa e apontou Devanil de Souza Nascimento, o “Sapo”, como homem de confiança do vereador.

Horas depois da prisão, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) determinou intervenção na Transunião para garantir a continuidade da prestação do serviço de transporte público.

A intervenção municipal na Transunião é uma medida prática que o poder público precisa tomar quando o gestor de um serviço essencial — como o transporte coletivo — é removido abruptamente. Sem intervenção, milhares de passageiros da zona leste de São Paulo poderiam ficar sem ônibus no dia seguinte à prisão do controlador da empresa.

A posição da defesa

A defesa de Senival Moura sustenta que o vereador não praticou qualquer irregularidade e afirma que a investigação demonstrará a inexistência de conduta ilícita.

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