
A confirmação oficial da chegada do El Niño, pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, nesta quinta-feira (11 de junho), acende o alerta no agronegócio brasileiro. O fenômeno climático, caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, deve provocar mudanças no regime de chuvas e influenciar diretamente a produção agrícola no país. Segundo a agência norte-americana, o fenômeno deve se desenvolver para um nível moderado ou forte, com possibilidade de figurar entre os recordes do fenômeno desde o início dos registros, em 1950.

O que é o El Niño e como ele age sobre o Brasil
O El Niño é um fenômeno climático natural causado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico tropical, na região próxima ao Peru e ao Equador. Esse aquecimento altera os padrões de circulação atmosférica em escala global — mudando a direção e a intensidade dos ventos, a distribuição das nuvens e o regime de chuvas em diferentes regiões do planeta. No Brasil, seus efeitos são distintos por região e tendem a se intensificar ao longo dos meses seguintes ao início do fenômeno.
O El Niño influencia eventos climáticos extremos, mas cada episódio é diferente. Segundo a NOAA, um El Niño muito forte não garante impactos maiores, mas aumenta a chance de eventos mais intensos.
A confirmação de que este episódio pode figurar entre os maiores já registrados é especialmente preocupante porque os El Niños mais intensos — como o de 1997-1998 e o de 2015-2016 — estão associados a perdas agrícolas expressivas, inundações, secas prolongadas e instabilidade climática intensa em várias regiões do país.
Os impactos por região nas lavouras
De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia, no Brasil os impactos do fenômeno climático variam por região. No Sul, o excesso de chuva em determinados períodos pode dificultar o plantio e a colheita, além de elevar o risco de perdas de produtividade. Já nas regiões Norte, Nordeste e em parte do Centro-Oeste e do Sudeste, a redução das chuvas aumenta o risco de veranicos — períodos de estiagem que podem comprometer o plantio e o desenvolvimento inicial de culturas como soja e milho.
O padrão é, portanto, de opostos simultâneos: enquanto o Sul pode sofrer com excesso hídrico — enchentes, alagamentos de lavouras, dificuldade de entrada de maquinário nos campos durante a colheita —, as regiões produtoras do Centro-Oeste e do Nordeste enfrentam o risco contrário: seca nos períodos críticos de desenvolvimento das culturas, especialmente nas fases de floração e enchimento de grãos da soja e do milho.
Isso tem consequências diretas sobre a produção nacional: o Brasil é o maior exportador mundial de soja e um dos maiores de milho, e boa parte dessa produção vem exatamente das regiões mais vulneráveis aos efeitos do El Niño — o Centro-Oeste, o Matopiba e o Sul. Uma safra comprometida pelo fenômeno tem impacto não apenas na renda dos produtores brasileiros, mas também nos preços internacionais das commodities e na balança comercial do país.
O impacto nos custos de produção
Produtores também acompanham os efeitos indiretos do fenômeno no custo de produção. A instabilidade climática pode pressionar o mercado de insumos, especialmente fertilizantes, que já registram alta de preços em meio a fatores externos e variações cambiais. Em anos de atuação mais intensa, o fenômeno reduz a previsibilidade do clima, o que afeta decisões de plantio, manejo e colheita no calendário agrícola. CartaCapital
A alta dos fertilizantes é particularmente sensível porque o Brasil é amplamente dependente da importação desses insumos — especialmente de potássio, nitrogênio e fósforo. Quando a instabilidade climática eleva a demanda global por fertilizantes — porque produtores do mundo inteiro tentam compensar perdas de produtividade com mais adubação —, os preços sobem num momento em que o produtor brasileiro já está pressionado por margens mais apertadas. É um ciclo que se retroalimenta: El Niño reduz a produtividade, aumenta a demanda por insumos, eleva os custos e comprime ainda mais o resultado financeiro do produtor.
O que o agronegócio pode fazer
Além dos efeitos no campo, o agronegócio acompanha possíveis impactos no custo de produção. A volatilidade climática tende a influenciar o preço de insumos agrícolas e pode pressionar margens em um cenário de maior incerteza. O planejamento antecipado e o uso de tecnologias de monitoramento climático são estratégias fundamentais para reduzir riscos durante a atuação do El Niño. Com o fenômeno oficialmente em vigor, o setor agropecuário entra em um período de monitoramento mais intenso das condições climáticas. A expectativa é de ajustes constantes no planejamento da safra, conforme a evolução dos impactos regionais.
Um alerta que chega num momento delicado
A confirmação do El Niño pela NOAA chega numa semana de pressões múltiplas sobre o agronegócio brasileiro. A União Europeia mantém o veto à carne bovina brasileira sem prazo para reabertura — exigindo adequação às novas regras sanitárias sobre antimicrobianos. O governo Trump propôs tarifas de 25% sobre produtos brasileiros nos Estados Unidos. E o El Niño, que já vinha sendo sinalizado nos últimos meses e cujos primeiros efeitos já se faziam sentir — com ciclones extratropicais, granizo no Oeste catarinense e alertas de seca no Nordeste —, é agora confirmado oficialmente como um fenômeno moderado a forte em formação.
Para o maior produtor agrícola do mundo fora dos Estados Unidos, a combinação de pressões climáticas, barreiras comerciais externas e volatilidade de insumos representa um desafio de primeira grandeza para a safra 2026-2027 — que começa a ser planejada pelos produtores exatamente agora.