
A confirmação do fenômeno El Niño nesta quinta-feira (11 de junho) colocou Santa Catarina em estado de atenção para os próximos meses. A Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil acompanha a evolução do fenômeno, que historicamente está associado ao aumento das chuvas no Sul do Brasil e pode elevar o risco de inundações, enxurradas e deslizamentos. A confirmação foi feita pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, após o registro de aquecimento superior a 0,5°C nas águas do Oceano Pacífico Equatorial acompanhado por respostas atmosféricas compatíveis com o fenômeno.

O que é o El Niño e por que ele é tão relevante para Santa Catarina
O El Niño é um fenômeno climático natural causado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico tropical. Esse aquecimento altera os padrões de circulação atmosférica global — mudando ventos, distribuição de nuvens e regime de chuvas em diferentes regiões do planeta. No Sul do Brasil, e especialmente em Santa Catarina, o efeito típico é o aumento significativo das precipitações, especialmente durante a primavera e o verão. O estado possui uma topografia de vales encaixados, serras íngremes e rios volumosos que reagem rapidamente ao excesso hídrico — tornando-o historicamente vulnerável a enchentes, enxurradas e deslizamentos em episódios de El Niño intenso.
A dimensão do fenômeno em 2026: potencial recorde
Segundo a NOAA, existe 63% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte neste ano, com pico previsto entre novembro e janeiro. Caso a projeção se confirme, o episódio poderá figurar entre os mais intensos já registrados desde 1950.
Para contextualizar: os El Niños mais intensos da história — como o de 1997-1998 e o de 2015-2016 — causaram desastres climáticos em escala global. No Brasil, estiveram associados a enchentes devastadoras no Sul, secas severas no Nordeste e aumento expressivo de casos de doenças transmitidas por mosquitos, como dengue. Se o episódio de 2026-2027 realmente se confirmar entre os maiores da série histórica, Santa Catarina precisará de toda a sua capacidade preventiva para evitar tragedias comparáveis ao desastre de 2008 — o maior da história do estado, com mais de 150 mortos.
Quando os impactos chegam: a primavera no centro das preocupações
Historicamente, os efeitos mais significativos do El Niño em Santa Catarina costumam ocorrer durante a primavera, especialmente entre setembro e novembro. Nesse período, o aumento das chuvas pode potencializar eventos extremos, já favorecidos pelas características climáticas da estação. O último episódio do fenômeno provocou impactos expressivos em Santa Catarina a partir do segundo semestre de 2023, quando diversas regiões registraram volumes elevados de chuva e ocorrências relacionadas a alagamentos, inundações e deslizamentos. As previsões atuais indicam que o El Niño deve ganhar intensidade ao longo dos próximos meses, alcançando seu pico entre a primavera e o verão e podendo se estender até o outono de 2027.
Apesar da confirmação, a Defesa Civil catarinense ressalta que ainda é cedo para determinar impactos concretos no Estado. Isso porque a atmosfera sobre o Sul do Brasil ainda não apresenta sinais claros de resposta ao aquecimento do Pacífico, condição que deve se desenvolver gradualmente nos próximos meses.
O estado de alerta climático e as medidas preventivas
Diante da possibilidade de um El Niño de forte intensidade, o Governo de Santa Catarina ampliou as ações de prevenção e resposta a desastres. Em maio, foi publicado o Decreto nº 1.530, que institui estado de alerta climático. A medida permite o pré-posicionamento de equipes em áreas vulneráveis, contratação preventiva de equipamentos e itens humanitários e estabelece critérios para eventuais decretos de emergência ou calamidade pública.
Na próxima segunda-feira (15), a Defesa Civil realizará uma reunião do Comitê de Gestão de Crises para discutir estratégias integradas de monitoramento, logística, resposta e assistência humanitária diante da evolução do fenômeno. Além disso, a Operação Primavera 2026 mobiliza os 295 municípios catarinenses em ações como limpeza de córregos e sistemas de drenagem, vistorias em áreas de risco, simulados de evacuação, desassoreamento de rios e atualização de planos de contingência.
A infraestrutura de monitoramento: 172 estações, 4 radares e uma antena de satélite única no Brasil
Santa Catarina também reforçou a estrutura de monitoramento climático. Atualmente, o Estado conta com 172 estações hidrometeorológicas que atualizam dados a cada 15 segundos, além de quatro radares meteorológicos distribuídos pelo território catarinense e equipes de meteorologistas em atuação permanente.
O estado também é o único do Brasil com antena própria da Defesa Civil para recepção direta de imagens de satélite meteorológico — o GOES-19 —, o que garante monitoramento em tempo real sem depender de servidores intermediários ou conexão com a internet, mesmo durante crises.
No Vale do Itajaí, região historicamente mais vulnerável às cheias, seguem os trabalhos de manutenção e reforma das barragens de contenção localizadas em Taió, Ituporanga e José Boiteux, além de ações de desassoreamento.
Como a população pode receber alertas
A Defesa Civil orienta a população a acompanhar os avisos meteorológicos e se cadastrar para receber alertas. O serviço pode ser ativado por SMS, com o envio do CEP para o número 40199, ou pelo WhatsApp, por meio do número (61) 2034-4611. Em situações de chuva intensa, a recomendação é evitar áreas alagadas e seguir as orientações das autoridades locais. Em caso de sinais de deslizamento, como rachaduras no solo, muros estufados ou árvores inclinadas, a população deve acionar a Defesa Civil pelo telefone 199.
A confirmação oficial do El Niño nesta quinta-feira chega num momento em que Santa Catarina já acumula semanas de instabilidade meteorológica intensa — com ciclones extratropicais, granizo, alertas de ressaca no litoral e sucessivas frentes frias. O que os meteorologistas vêm observando desde o final de maio pode ser, portanto, apenas o começo de um inverno e de uma primavera especialmente difíceis para o estado que, apesar de ser o mais preparado do Brasil para esse tipo de fenômeno, sabe pelos anos anteriores que a melhor defesa contra o El Niño é a antecipação.