
A Argentina encerra o primeiro semestre de 2026 com um conjunto de indicadores econômicos que, pela primeira vez em mais de uma década, apontam consistentemente para a melhora. O presidente Javier Milei, que assumiu o governo em dezembro de 2023 com o discurso de “passar a motosserra” nos gastos públicos, colhe agora os resultados mais concretos de seu programa de ajuste fiscal — ao mesmo tempo em que o país revela as cicatrizes profundas que esse processo deixou em determinados setores da economia.
O que é o programa econômico de Milei
Antes de entender os números, é precisa contextualizar o que Milei fez. O presidente argentino é um economista libertário que chegou ao poder com um diagnóstico simples e radical: a Argentina vivia há décadas de déficits fiscais financiados pela emissão de moeda, o que gerava inflação crônica e destruía o valor das poupanças dos argentinos. Sua solução foi igualmente radical: cortar gastos do Estado de forma drástica e veloz — fechando ministérios, demitindo servidores públicos, eliminando subsídios e zerando o déficit primário — para acabar com a necessidade de o governo imprimir dinheiro e, com isso, deter a inflação. O custo social de curto prazo seria inevitável, mas Milei apostou que o ajuste rápido seria menos doloroso do que anos adicionais de inflação descontrolada.
O crescimento econômico
Estimativas do Fundo Monetário Internacional indicam que o PIB argentino cresceu 4,5% no ano passado e deverá avançar mais 4% em 2026. A maioria das consultorias, do próprio governo e de organismos internacionais concorda que em 2026 a atividade econômica terá seu segundo ano de expansão consecutivo — situação que não se verificava desde 2010-2011.
O primeiro trimestre de 2025 mostrou a força do movimento: a economia argentina cresceu 5,8% ano a ano, impulsionada pela agricultura, construção, manufatura, comércio e, de forma impressionante, pela intermediação financeira, que expandiu 27,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. O consumo privado cresceu 11,6% no mesmo período, o que Milei celebrou como prova de que o ajuste fiscal não destruiu o poder de compra da população, mas ao contrário, o restaurou ao eliminar o imposto inflacionário.
A queda da inflação: de 211% para 32%
Este é o resultado mais emblemático do governo Milei. A inflação recuou de 117,8% em 2024 para 31,5% em 2025, atingindo o patamar mais baixo desde 2017. Em abril de 2026, a taxa anual caiu ainda mais, para 32,40%, mantendo a tendência de desinflação.
Para dimensionar a magnitude da mudança: quando Milei tomou posse, em dezembro de 2023, a Argentina registrava inflação anual de 211% — a terceira maior do mundo. Em pouco mais de dois anos, esse número foi reduzido em mais de 80 pontos percentuais. O mecanismo foi direto: ao zerar o déficit fiscal e eliminar a emissão de moeda para cobrir gastos do governo, a principal fonte de pressão inflacionária foi removida. O preço dessa estabilização foi uma recessão intensa no primeiro ano de governo — o PIB caiu 5% no primeiro trimestre de 2024 —, seguida pela recuperação que se consolida agora.
O risco-país e o retorno ao mercado internacional
A avaliação de crédito e o risco-país da Argentina passaram a registrar melhores resultados. A dívida argentina caiu de um pico de 155,7% do PIB em 2023 para 82,6% ao encerrar 2024. No final de janeiro de 2026, o risco-país argentino caiu para menos de 500 pontos pela primeira vez desde 2018. A estimativa de especialistas é de que a Argentina retorne aos mercados internacionais de capitais mais cedo do que tarde ainda este ano.
O risco-país é um indicador que mede quanto os investidores cobram a mais para emprestar dinheiro a um governo em comparação ao que cobrariam dos Estados Unidos — considerado o devedor mais seguro do mundo. Quanto menor o risco-país, mais barato e mais acessível é o crédito internacional. A queda abaixo de 500 pontos representa uma mudança qualitativa: a Argentina começa a ser vista não mais como um país à beira do calote, mas como um mercado emergente em vias de normalização.
A pobreza: queda expressiva, mas ainda elevada
O nível de pobreza diminuiu para 36,3% no terceiro trimestre do ano passado, após ter alcançado 45,6% no mesmo período de 2024. A queda de quase 10 pontos percentuais em um ano é expressiva, mas o número absoluto ainda é alto: mais de um terço da população argentina vive abaixo da linha da pobreza.