
Pnad 2025 revela que 22,7% dos domicílios — cerca de 18 milhões de famílias — receberam algum benefício do governo; queda é atribuída ao mercado de trabalho aquecido; Nordeste tem quatro em cada dez famílias dependentes; renda per capita recorde convive com desigualdade de 13,8 vezes entre ricos e pobres
Cerca de 18 milhões de famílias receberam dinheiro de algum programa do governo federal em 2025. Esse dado representa 22,7% dos mais de 79 milhões de domicílios do país.
As informações fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada nesta sexta-feira, 8 de maio, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Rio de Janeiro. O IBGE considerou programas federais, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que paga um salário mínimo por mês ao idoso com 65 anos ou mais ou à pessoa com deficiência de qualquer idade. Também foram incluídas ajudas assistenciais de estados e municípios.

A tendência de queda e o patamar histórico
Em 2024, a proporção era maior, 23,6%. Já em 2019, último ano antes da pandemia de Covid-19, 17,9% dos lares eram beneficiários de algum tipo de programa social. Essa diferença representa a inclusão de 5,5 milhões de famílias abrangidas por programas de ajuda em seis anos.
Por que o número caiu: mercado de trabalho aquecido
O analista do IBGE Gustavo Geaquinto Fontes explica que a redução na proporção de domicílios beneficiários dos programas sociais no último ano está relacionada ao mercado de trabalho aquecido. “O aumento da renda do trabalho pode impactar em menor necessidade de parte das pessoas para que tenha renda mínima e não estaria mais contemplada por programas sociais.” O especialista lembra que o nível de desemprego em 2025 foi o menor já registrado pela série histórica do IBGE, iniciada em 2012.
O valor médio dos benefícios
De acordo com o levantamento, em 2025, o rendimento médio de programas sociais do governo era de R$ 870, pouco abaixo de 2024 (R$ 875). Já em relação a 2019 (R$ 508), o valor cresceu 71,3%, já descontada a inflação do período.
1 em cada 11 brasileiros recebe diretamente
Cerca de 19,4 milhões de brasileiros, 9,1% da população ou o equivalente a 1 em cada 11, receberam rendimentos de programas sociais do governo, como Bolsa Família e BPC. O percentual se manteve ligeiramente abaixo do registrado em 2024 (9,2%), mas ainda acima do nível pré-pandemia. Em 2019, 6,3% da população brasileira recebia esse tipo de rendimento, proporção que chegou a 13% em 2020, no auge do auxílio emergencial.
O mapa regional da dependência: quatro em cada dez no Nordeste
A presença de algum tipo de benefício reflete a desigualdade de renda regional. No Nordeste, 39,8% das famílias recebiam dinheiro de programa social — isso representa quatro em cada dez. No Norte, eram 38,8%. Já no Sul, eram apenas 10,8% dos domicílios. Em seguida aparecem o Sudeste (14,8%) e o Centro-Oeste (17%).
Segundo o IBGE, nessas regiões com maior incidência (Norte e Nordeste), os programas sociais chegam a superar outras fontes de rendimento não oriundas do trabalho, refletindo maior vulnerabilidade socioeconômica.
O Bolsa Família como principal motor
O Bolsa Família segue como principal programa de transferência de renda do país, alcançando 17,2% dos domicílios.
Mais da metade dos beneficiários está vinculada ao Bolsa Família, que atende 20,7 milhões de famílias, cerca de 54,5 milhões de pessoas, incluindo crianças e adolescentes. O investimento federal ultrapassa R$ 14 bilhões por mês, com valor médio de R$ 684 por família, acrescido de adicionais para gestantes, jovens e crianças pequenas. No total, os programas sociais custam cerca de meio trilhão de reais por ano, financiados majoritariamente por impostos.
Renda recorde, mas desigualdade persiste
Entre os rendimentos de outras fontes, os programas sociais aparecem como a segunda principal categoria, atrás apenas de aposentadorias e pensões, que alcançam 13,8% da população. A mesma pesquisa revelou que a renda média das famílias chegou a R$ 2.264, um recorde histórico, mas o rendimento dos mais ricos ainda é 13,8 vezes maior que o dos mais pobres — indicador que mostra que o crescimento da renda ainda não foi suficiente para reduzir de forma expressiva a desigualdade estrutural do país.
O debate político: inclusão ou dependência crônica?
Para o governo, os programas são ferramentas de inclusão; para críticos, refletem uma dependência que pode se tornar crônica. Especialistas alertam para os riscos. Marcelo Neri, da FGV, aponta: “Sem saídas reais, como qualificação profissional e empregos de qualidade, os benefícios podem se tornar uma armadilha, limitando o potencial produtivo do país.”
Os dados do IBGE pintam um retrato ambíguo do Brasil em 2025: por um lado, o mercado de trabalho mais aquecido em mais de uma década está retirando famílias da dependência dos programas sociais. Por outro, quase 1 em cada 4 domicílios ainda precisa do Estado para fechar as contas do mês — e no Nordeste, principal reduto eleitoral de Lula, essa proporção sobe para quase 4 em cada 10. Em ano eleitoral, os números da Pnad tornam-se tanto um argumento do governo quanto um alerta sobre os limites do modelo assistencial como caminho exclusivo para reduzir a pobreza no Brasil.