
Projeção oficial aponta déficit de R$ 9,1 bilhões para o ano; plano de reestruturação inclui 15 mil demissões voluntárias e fechamento de mil agências, mas Fazenda admite que as medidas podem não ser suficientes
O cenário financeiro dos Correios permanece altamente desafiador, com a projeção de prejuízo recorde para 2026 colocando em xeque a eficácia das medidas de reestruturação anunciadas e destacando a complexidade da gestão da empresa em um mercado cada vez mais competitivo e digitalizado.
Para 2026, a estimativa do governo é de um déficit primário de R$ 9,101 bilhões nos Correios — valor superior ao prejuízo de R$ 8,5 bilhões registrado em 2025, que já era o maior da história da estatal.
O alerta da Fazenda
O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, afirmou haver chance de maior contingenciamento em 2026 por causa da saúde financeira dos Correios. “A gente ainda não tem um número fechado, mas existe um risco de ser ainda maior do que a gente está vendo neste ano”, declarou. Durigan também afirmou ter pedido pessoalmente ao presidente dos Correios que apresente um bom plano de reestruturação. “O plano que está em curso está sendo apresentado na governança dos Correios e deve ser ousado e, ao mesmo tempo, muito cuidadoso para que a gente tenha uma operação desenhada que se pague e possa melhorar a situação dos Correios”, disse.
O plano de reestruturação
Os Correios divulgaram um plano de reestruturação com previsão de fechar 16% das agências, o que representa cerca de mil das 6 mil unidades próprias em todo o país. A estatal espera economizar R$ 2,1 bilhões com o fechamento de unidades. O presidente da estatal, Emmanoel Rondon, destacou que o fechamento será realizado sem violar o princípio da universalização do serviço postal.
O plano prevê ainda cortes de despesas da ordem de R$ 5 bilhões até 2028, com venda de imóveis e dois planos de demissão voluntária previstos para reduzir o número de funcionários em 15 mil até 2027.
Nas duas ocasiões em que o plano foi apresentado publicamente, a empresa se comprometeu a cortar despesas operacionais, diversificar fontes de receita e recuperar a capacidade financeira necessária para quitar dívidas acumuladas. Em dezembro, quando as medidas foram consolidadas em um plano que se estende até 2027, os Correios assumiram o compromisso de gerar economia anual de R$ 7,4 bilhões, sendo R$ 4,2 bilhões provenientes de cortes de gastos e R$ 3,2 bilhões de aumento de receitas.
Primeiros sinais de ajuste
Apesar do cenário adverso, os primeiros resultados do esforço de reestruturação começam a aparecer. De janeiro até março de 2026, a estatal conseguiu renegociar 98,2% das dívidas com fornecedores e prestadores de serviço, gerando economia estimada em R$ 321 milhões. Os Correios também conseguiram parcelar cerca de R$ 1,2 bilhão em pagamentos de precatórios e tributos. Para o conjunto de 2026, a expectativa é de que mudanças em benefícios representem redução de custos entre R$ 500 milhões e R$ 700 milhões.
A trajetória de queda
A série negativa dos Correios é contínua desde 2022. Detentora do monopólio de cartas e correspondências, a empresa fechou 2024 com prejuízo de R$ 2,5 bilhões. Ao longo de 2025, a situação se agravou: apenas no primeiro semestre, o déficit acumulado já ultrapassava R$ 4 bilhões, chegando a R$ 6 bilhões no acumulado até setembro.
O aumento dos prejuízos previsto para 2026 indica claramente a pouca eficácia do plano de reestruturação apresentado em meados de outubro e detalhado em dezembro de 2025.