
Deputada apresentou requerimento à Casa Civil pedindo esclarecimentos sobre contratação de cruzeiros por R$ 350 milhões; empresa escolhida tem ligação com sócio do banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no Caso Master
A deputada federal Caroline De Toni (PL-SC) apresentou requerimento de informação à Casa Civil da Presidência da República solicitando esclarecimentos sobre o planejamento, a contratação de navios de cruzeiro e os custos relacionados à realização da COP30, em Belém, em novembro de 2025. O documento questiona, entre outros pontos, a contratação de navios de cruzeiro para hospedagem de participantes do evento, incluindo o custo estimado, os contratos firmados, os critérios adotados e o procedimento de contratação utilizado.
A parlamentar também solicita informações sobre a capacidade da rede hoteleira local, a existência de estudos prévios de viabilidade logística e econômica, bem como eventuais análises comparativas com outras alternativas de hospedagem ou com a realização do evento em outras cidades. Outro eixo do requerimento envolve a participação de instituições financeiras na estruturação dos contratos, com pedidos de esclarecimento sobre eventual atuação de agentes privados e os mecanismos de garantia adotados.
O contrato dos navios
O governo do presidente Lula gastou ao menos R$ 350,2 milhões no aluguel de cruzeiros que serviram para hospedagem durante a realização da COP30 em Belém, em novembro de 2025.
A Secretaria Especial da COP30, vinculada à Casa Civil, firmou parceria com a Embratur para viabilizar a operação logística de hospedagem em Belém. A Embratur ficou responsável pela execução do projeto e subcontratou a empresa Qualitours Agência de Viagens e Turismo Ltda., que posteriormente celebrou contratos com as companhias Costa Cruzeiros e MSC Cruzeiros para disponibilizar cabines durante a conferência.
A polêmica: ligação com sócio de Vorcaro
A Qualitours pertence ao empresário Marcelo Cohen, que também já declarou ser proprietário do Botanique, hotel de luxo em Campos do Jordão. Daniel Vorcaro costuma afirmar que o empreendimento pertence à empresa Prime You, companhia que controla jatinhos utilizados pelo banqueiro. As conexões empresariais entre Cohen e grupos ligados a Vorcaro também envolvem a holding BeFly, criada em 2021.
A revelação ganhou peso político pelo momento: Vorcaro é o alvo central da Operação Compliance Zero, que apura um esquema bilionário de lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Master.
A defesa do governo
O governo federal afirmou que a seleção da empresa responsável pela operação e comercialização das cabines ocorreu por meio de chamamento público conduzido pela Embratur. A Qualitours teria apresentado todos os documentos legalmente exigidos para atestar idoneidade e capacidade de execução do contrato. A estruturação financeira da operação foi garantida pelo banco BTG Pactual, por meio da emissão de carta fiança. O governo também negou qualquer participação do Banco Master no processo de contratação dos navios.
O TCU aprovou a contratação
O contrato foi analisado pelo Tribunal de Contas da União, que aprovou a operação por unanimidade. A decisão consta no Acórdão 756/2026, relatado pelo ministro Bruno Dantas. Segundo o tribunal, houve fundamentação técnica, jurídica e estratégica adequada, além de estudos prévios que sustentaram a escolha do modelo adotado pelo governo. O TCU apontou que o formato escolhido foi economicamente superior ao afretamento direto, uma vez que a contratação direta exigiria alto desembolso antecipado em moeda estrangeira, sem garantia de retorno financeiro. Além disso, o valor final pago ficou abaixo do teto estimado inicialmente. O custo de R$ 350 milhões foi considerado compatível e mais eficiente, especialmente diante das limitações de hospedagem no Pará.
Apesar da aprovação do TCU, a oposição mantém pressão por maior transparência, e o requerimento de De Toni obriga o governo a prestar informações formais ao Congresso Nacional.