“Assumam que estão ferrados”: troca de mensagens ríspidas leva Nunes Marques a bloquear Gilmar Mendes no WhatsApp

Após ameaças, Nunes Marques bloqueou Gilmar Mendes no WhatsApp - Blog do  Ricardo Antunes

Decano acusa Mendonça, Fux e Kassio de jogada combinada no julgamento sobre afastamento de Andrei Rodrigues; conversa escala até Gilmar cobrar que colega “abra as contas” da própria família, numa referência a suposto pagamento a filho de Nunes Marques encontrado no celular de Vorcaro

Uma troca de mensagens de WhatsApp entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques terminou com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) bloqueando o contato do decano da Corte. O episódio, revelado com exclusividade pela coluna de Andreza Matais, do Metrópoles, ocorreu há oito dias, enquanto Nunes Marques estava em um casamento na Itália e a Segunda Turma do STF julgava o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

A suspeita de Gilmar sobre uma “jogada combinada”

Segundo apurado pela coluna, Gilmar Mendes ficou convencido de que houve um acerto prévio entre André Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques no julgamento que decidiu pelo afastamento de Andrei Rodrigues. A suspeita se baseia na sequência dos votos: Gilmar pediu vista — mais tempo para analisar o processo — às 10h01; Fux votou às 10h04; e Kassio, às 10h06, apenas quatro minutos depois de Fux. Segundo o decano, não é comum que ministros votem logo após um colega pedir vista, e a sessão em si já teria sido combinada reservadamente na sexta-feira anterior.

A acusação de Gilmar vai além: ele suspeita que Mendonça tenha ignorado, na condução das investigações do caso Banco Master, conversas encontradas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro que atingiriam Kassio Nunes Marques e outros ministros — e que, em troca, teria recebido apoio desses colegas nas votações relacionadas ao caso.

A troca de mensagens

Foi nesse clima que a discussão migrou do plenário do STF para o WhatsApp entre os dois ministros. Gilmar Mendes escreveu a Nunes Marques: “Assumam q estao ferrados e saiam dos processos. Abram as contas”. Nunes Marques reagiu: “Me respeite Gilmar. Isso não é postura”.

Gilmar subiu o tom: “Nao julguem porra. Não respeito a quem nao se daH respeito. Vc tem de sair do tse também”. Kassio respondeu: “Então não me tecle pois não falo com quem não me respeita”. Gilmar insistiu: “Abra as suas contas antes de julgar qualquer coisa desse caso na turma”. Nunes Marques replicou: “Abro com o maior prazer. Há 15 anos que presto contas de tudo. Como juiz. Tramoias…”. Gilmar encerrou a troca estendendo a cobrança à família do colega: “Verdade! De sua família…” — mensagem que, segundo apurado, sequer chegou a ser lida por Nunes Marques, que já havia bloqueado o contato do decano. Gilmar segue bloqueado no celular do colega, segundo pessoas próximas ao ministro.

A referência à família não foi gratuita

A menção de Gilmar à família de Kassio Nunes Marques está relacionada a uma revelação anterior da própria coluna: em conversas de WhatsApp com o diretor jurídico do Banco Master, Daniel Vorcaro teria sido informado de que foram pagos R$ 500 mil a Kevin Nunes Marques, filho do ministro. Nunes Marques nega que o filho tenha trabalhado para o Master e nega ter tido acesso a esse relato. Ele reafirmou a versão em plenário nesta terça-feira (15/9), classificando a relação como inexistente.

Após a reportagem sobre o pagamento, Nunes Marques se declarou impedido de participar do julgamento que vai definir se a Corte deve investigar Alexandre de Moraes por sua relação com Vorcaro.

Outro caso semelhante: o filho de Fux

A coluna do Metrópoles também revelou relações profissionais e de proximidade entre o filho do ministro Luiz Fux, o advogado Rodrigo Fux, e Daniel Vorcaro. Em mensagens, Vorcaro procurou Rodrigo Fux pedindo ajuda em um caso — “Quero te chamar pra me ajudar num caso” —, ao que o filho de Fux respondeu se colocando à disposição e marcando uma videoconferência para o dia seguinte: “Será um prazer, se eu puder ajudar”. Vorcaro agradeceu: “Valeu irmão”.

Tratamento seletivo apontado por relatório da PF

Um relatório de inteligência da Polícia Federal também aponta diferenças na velocidade com que Mendonça analisava medidas solicitadas pela corporação: pedidos envolvendo aliados do governo, como o ex-ministro Jaques Wagner, teriam sido decididos com mais rapidez do que aqueles relacionados a políticos da oposição, como o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, ligado ao grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro.

É esse conjunto de episódios — a suposta seletividade na condução das investigações somada aos votos favoráveis de ministros supostamente poupados — que alimenta a acusação de Gilmar de que Mendonça teria conduzido o caso Banco Master de forma seletiva, poupando colegas que, na sequência, lhe deram sustentação nos julgamentos da Segunda Turma do STF. Tanto Mendonça quanto Fux negaram com veemência as suspeitas levantadas pelo decano.

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