Esposa de Moraes enviou contrato de R$ 129 milhões diretamente a Vorcaro pelo WhatsApp, segundo mensagens obtidas pela PF

Esposa de Moraes enviou contrato de R$ 129 milhões a Vorcaro, diz PF

A advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, enviou pessoalmente ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, a minuta de um contrato de honorários que previa pagamentos de R$ 129 milhões ao seu escritório. A revelação foi publicada pelo Estadão na noite de terça-feira (1º de julho) e se baseia em mensagens de WhatsApp extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro durante a Operação Compliance Zero.

O que as mensagens mostram

Segundo o Estadão, numa mensagem enviada em 17 de janeiro de 2024, Viviane escreveu ao banqueiro: “Bom dia! Segue a minuta do contrato. Abraço.” Cinco dias depois, Vorcaro respondeu: “Oi, tudo bem? Como podemos proceder na assinatura? Prefere eletronicamente ou mando as vias físicas assinadas?”

O teor da troca é direto e revela que foi a própria esposa do ministro — e não um intermediário do escritório — quem enviou a minuta para o banqueiro que hoje é o principal investigado no maior inquérito financeiro em tramitação no STF. A conversa foi incluída nos autos do inquérito que apura o suposto vazamento de informações sobre a família de Moraes, e é parte do vasto material apreendido no celular de Vorcaro.

O contrato: R$ 3,6 milhões por mês durante três anos

O contrato previa que o escritório Barci de Moraes Associados prestaria serviços jurídicos ao Banco Master em assuntos envolvendo o Banco Central, a Receita Federal e o Congresso Nacional. O acordo estabelecia pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões durante três anos — valor que, se integralmente cumprido, chegaria a R$ 129 milhões até o início de 2027.

Segundo dados da Receita Federal citados pelo Estadão, o escritório efetivamente recebeu R$ 80,2 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025, antes que os pagamentos fossem interrompidos com a liquidação da instituição financeira.

O que é o escritório Barci de Moraes e o que ele diz

Viviane Barci de Moraes é advogada e sócia proprietária da Barci de Moraes Sociedade de Advogados. O escritório, procurado pelo Estadão, afirmou que não comenta tratativas envolvendo clientes. Em manifestação anterior, divulgada em março deste ano, a banca declarou que a consultoria prestada ao Banco Master teve como foco a implementação de mecanismos de compliance — políticas internas de conformidade com a lei — revisão do Código de Ética e Conduta, políticas de prevenção à lavagem de dinheiro, gestão de riscos, proteção de dados e relacionamento com o poder público. Segundo a nota, foram realizadas 94 reuniões de trabalho durante a vigência do contrato, incluindo 79 presenciais na sede do banco, além da elaboração de 36 pareceres jurídicos.

Por que a revelação é politicamente explosiva

A nova informação é de uma gravidade institucional raramente vista no Brasil. Alexandre de Moraes é o ministro do STF responsável por alguns dos processos mais sensíveis da política brasileira — incluindo o julgamento que condenou Jair Bolsonaro, os inquéritos sobre o golpe de 8 de janeiro, os processos contra políticos e empresários investigados por diferentes delitos. Ao mesmo tempo, sua esposa mantinha um contrato de R$ 129 milhões com o banqueiro que é o principal investigado no caso Master — um dos maiores escândalos financeiros da história recente do país, cujo inquérito tramita no STF sob relatoria de outro ministro, André Mendonça, justamente porque Moraes foi afastado do caso diante das suspeitas de conflito de interesses.

O pedido de suspeição de Moraes para julgar casos ligados ao Banco Master, protocolado pelo senador Flávio Bolsonaro com base nos R$ 80 milhões recebidos pelo escritório da esposa do ministro, ganhou agora uma dimensão adicional: as mensagens mostram que não foi o banco que procurou o escritório — foi Viviane quem enviou a minuta do contrato diretamente a Vorcaro, sugerindo uma proatividade na busca pela relação comercial que reforça os argumentos da defesa sobre o conflito de interesses.

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