
Em sua primeira entrevista depois de ter o resultado oficial confirmado, a presidente eleita do Peru, Keiko Fujimori, declarou que pretende liderar um processo de reconciliação nacional após uma das disputas eleitorais mais tensas e apertadas da história recente do país. “Curar as feridas” foi a expressão que ela usou para descrever o papel que pretende desempenhar desde o início do mandato, que começa em 28 de julho e se estende até 2031.
O resultado e o que ele representa
Keiko venceu o segundo turno com 50,13% dos votos, contra 49,86% do candidato de esquerda Roberto Sánchez. A margem de menos de 0,3 pontos percentuais — menos de 50 mil votos num universo de mais de 27 milhões de eleitores — chegou a esse resultado definitivo apenas após quase três semanas de apuração, recontagem de atas em observação e escrutínio conduzido por comissões judiciais. É a menor margem de vitória já registrada numa eleição presidencial peruana, superando inclusive as derrotas anteriores de Keiko, todas por franjas igualmente estreitas.
A vitória marca o retorno do fujimorismo ao poder 26 anos depois da queda do ex-presidente Alberto Fujimori. Para seus apoiadores, é o encerramento de um ciclo de exclusão política. Para seus críticos, levanta questões sobre o legado de um governo que combinou resultados econômicos positivos com graves violações de direitos humanos.
O que Keiko prometeu na primeira entrevista
Em entrevista ao jornalista cubano Ismael Cala, ela disse estar grata pelo resultado e afirmou que uma das principais missões de seu governo será curar as feridas da sociedade peruana. A presidente eleita também afirmou que pretende restaurar a ordem, devolver a confiança da população e oferecer previsibilidade ao setor privado.
Sobre o legado controverso do pai, Keiko foi direta: declarou ser “absolutamente respeitosa com o Estado de Direito e a democracia”. A resposta é politicamente calculada — ela não renega Alberto Fujimori, mas tenta dissociar sua própria administração das sombras jurídicas que perseguiram o fujimorismo durante décadas.
Os desafios que a esperam
Entre os principais desafios do novo governo estão o combate ao aumento da criminalidade e a recuperação da estabilidade política de um país que teve oito presidentes nos últimos dez anos.
O número é emblemático da profundidade da crise institucional peruana: oito presidentes em dez anos, numa sucessão de renúncias, impeachments, tentativas de golpe — como a de Pedro Castillo em 2022, que tentou dissolver o Congresso e foi imediatamente destituído — e conflitos permanentes entre o Executivo e o Legislativo. Keiko assume um cargo que, historicamente, tem destruído a carreira de quem o ocupa, num país onde o mecanismo parlamentar de “incapacidade moral permanente” funciona como uma espada de Dâmocles permanente sobre qualquer presidente.