
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos aplicou nesta terça-feira (1º de julho) as primeiras sanções concretas decorrentes da classificação do Primeiro Comando da Capital como organização terrorista estrangeira, vigente desde 5 de junho. As medidas bloqueiam bens de dois cidadãos brasileiros — Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira — e de quatro empresas: a Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda, a Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda e a Wave Construções Inteligentes Ltda, todas brasileiras, além da Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda, sediada em Portugal.
O que as investigações revelaram
O FBI, o Departamento de Justiça e a força-tarefa do Departamento de Segurança Interna conduziram as investigações que embasaram as sanções. Segundo os apuradores, Shimada atuava como elo entre o PCC na Flórida e traficantes internacionais, lavando mais de US$ 30 milhões em diferentes cidades norte-americanas por meio de criptomoedas enviadas ao Brasil.
O comunicado americano descreve Stella Stefanie como secretária e colaboradora direta de Shimada, responsável por organizar a logística de recolhimento de dinheiro em espécie utilizado no esquema.
A conexão com o Corinthians e a Vai de Bet
Shimada já havia sido detido pela Polícia Federal brasileira em janeiro de 2025 por suspeita de lavagem de dinheiro ligada a um clube de futebol brasileiro em um esquema fraudulento de patrocínio. O comunicado americano não menciona o Corinthians diretamente, mas afirma que a Victory Trading “lavou dinheiro roubado de um clube de futebol em um esquema de fraude”. O caso se refere ao escândalo envolvendo o contrato de patrocínio entre o Corinthians e a casa de apostas Vai de Bet — investigação que corre em paralelo na Justiça brasileira e que a Victory Trading integra como empresa investigada. Segundo apuração da Polícia Civil, a Victory transferiu R$ 200 mil à UJ Football Talent Intermediação, valor que teria chegado a uma empresa denominada Neoway Soluções, possivelmente registrada em nome de laranja.
O que são as sanções e o que elas significam na prática
As sanções do Departamento do Tesouro americano — aplicadas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros, o OFAC — têm alcance global. A decisão proíbe todas as transações de cidadãos e empresas dos EUA com os alvos, determina o bloqueio de quaisquer ativos sob jurisdição norte-americana e, num ponto de especial relevância, prevê sanções secundárias para instituições financeiras estrangeiras que realizarem negócios relevantes com os sancionados. Isso significa que bancos europeus, asiáticos ou latino-americanos que operem em dólares e mantenham transações com as pessoas e empresas listadas passam a estar sujeitos à punição americana — uma extensão do alcance jurisdicional dos EUA que vai muito além de suas fronteiras físicas.
Na prática, os sancionados ficam cortados do sistema financeiro internacional: não podem abrir contas em bancos com correspondentes americanos, não podem movimentar recursos em dólares e não podem realizar transações com qualquer entidade sob jurisdição dos EUA. Para empresas que dependem de importação, exportação ou de qualquer cadeia logística que passe pelos Estados Unidos, o efeito equivale a uma exclusão do mercado globalizado.
O que muda com a classificação de terrorista como base legal
A relevância desta sanção vai além dos indivíduos e empresas listados. Ela demonstra que a classificação do PCC como organização terrorista estrangeira — aprovada em 5 de junho, menos de dez dias depois da visita do senador Flávio Bolsonaro à Casa Branca — não foi apenas uma declaração política, mas o começo de uma cadeia de consequências jurídicas e financeiras concretas. O OFAC passou a rastrear ativamente redes financeiras ligadas ao PCC no sistema internacional, e estas sanções são a prova de que o mecanismo está funcionando. Nos precedentes com outros grupos classificados como terroristas pelo governo Trump — como o Cartel de Sinaloa e o Tren de Aragua —, o bloqueio de ativos foi seguido por investigações mais profundas, extradições e operações conjuntas de inteligência. O caso dos brasileiros sancionados nesta terça-feira pode ser apenas o início de uma série de medidas que atingirão membros identificados da rede financeira do PCC em diferentes países.