
O volume da Dívida Pública Federal atingiu R$ 9,03 trilhões em maio. O resultado divulgado pelo Tesouro Nacional representa uma elevação de 2,66% em relação ao mês anterior, abril, quando o estoque era de R$ 8,79 trilhões.
A marca de R$ 9 trilhões é um marco histórico inédito nas finanças públicas brasileiras. Para ter uma referência do que esse número representa: R$ 9 trilhões equivalem a aproximadamente quatro vezes o valor de todo o PIB do Brasil em 2015, ou ao PIB atual de países como Coreia do Sul e Canadá somados. É a dívida do governo federal — não do país todo, apenas da União — com os investidores que compraram títulos do Tesouro Nacional ao longo dos anos.
Por que a dívida cresceu R$ 234 bilhões em um único mês
O acréscimo de R$ 234,4 bilhões teve motivação principalmente pela emissão líquida de R$ 134,5 bilhões em títulos, além da incorporação de quase R$ 100 bilhões em juros no período. Os títulos emitidos totalizaram R$ 166,27 bilhões, enquanto os resgates chegaram a R$ 31,8 bilhões.
O crescimento da dívida em maio tem, portanto, duas origens distintas. A primeira é estrutural: o governo emitiu muito mais títulos do que resgatou — ou seja, tomou mais dinheiro emprestado do mercado do que devolveu —, num saldo positivo de R$ 134,5 bilhões. Isso ocorre porque o governo precisa constantemente rolar sua dívida: quando títulos vencem, ele emite novos para pagar os anteriores, e quando gasta mais do que arrecada, emite títulos adicionais para cobrir o déficit. A segunda origem são os juros: quase R$ 100 bilhões foram incorporados ao estoque da dívida em um único mês, simplesmente porque a taxa Selic — que remunera a maior parte dos títulos — continuou elevada ao longo do período, mesmo após o recente corte para 14,25% ao ano.
A composição da dívida: 96% interna, 4% externa
A Dívida Pública Federal interna respondeu por R$ 8,69 trilhões do total, cerca de 96% do valor, com um crescimento de R$ 229,8 bilhões no mês. Por outro lado, a dívida externa ficou em R$ 340,5 bilhões, um salto de R$ 4,6 bilhões.
A altíssima concentração da dívida no mercado interno — 96% — tem implicações importantes. Por um lado, ela reduz a exposição do governo brasileiro ao risco cambial: dívidas em moeda estrangeira ficam mais caras automaticamente quando o dólar sobe. Por outro, ela cria uma dependência intensa do mercado financeiro doméstico: o governo precisa constantemente convencer investidores brasileiros a renovar e comprar novos títulos, o que limita sua margem de manobra nas taxas de juros — se o Banco Central baixasse os juros demais ou muito rápido, os investidores poderiam deixar de comprar os títulos do Tesouro, dificultando o financiamento da dívida.
A estrutura dos títulos: quase metade atrelada à Selic
A estrutura da dívida também apresentou alterações. A participação dos títulos com Taxa Flutuante atingiu 48,99%, enquanto os títulos prefixados compõem 21% do total. Já os atrelados a índice de preços tiveram queda para 26,26%.
Quase metade de toda a dívida pública federal brasileira está atrelada à taxa Selic — os chamados títulos pós-fixados ou de Taxa Flutuante, principalmente as LFTs. Isso significa que cada ponto percentual que a Selic sobe representa dezenas de bilhões de reais adicionais no custo anual do serviço da dívida. Com a Selic ainda em 14,25% ao ano — mesmo após o recente corte —, o Brasil paga uma das taxas de juros reais mais altas do mundo para se financiar, o que explica por que a dívida cresce mesmo nos meses em que o governo não registra déficit primário expressivo: os juros sozinhos são suficientes para inflar o estoque.
O acumulado de janeiro a maio: R$ 427 bilhões só em juros
Entre janeiro e maio deste ano, o estoque da dívida cresceu R$ 397,6 bilhões e o acréscimo em juros somou R$ 427,54 bilhões. Apesar da alta, o valor ainda está abaixo do intervalo projetado pelo Plano Anual de Financiamento de 2026, que prevê valores entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões para o período.
O dado dos R$ 427 bilhões em juros acumulados nos primeiros cinco meses do ano é o mais eloquente de toda a divulgação: em apenas cinco meses, os juros da dívida pública consumiram mais do que o PIB anual de vários estados brasileiros. Para comparar: o orçamento total do Ministério da Saúde para 2026 é de cerca de R$ 230 bilhões — menos da metade do que o governo pagou só em juros da dívida em cinco meses. O fato de o estoque ter crescido menos do que os juros pagos no período indica que o governo conseguiu um resultado primário positivo suficiente para compensar parcialmente o custo dos juros — mas o número ainda revela a magnitude do desafio fiscal brasileiro.
O que o Plano Anual de Financiamento prevê
O PAF — Plano Anual de Financiamento — é o documento que o Tesouro Nacional divulga no início de cada ano com as estimativas para a trajetória da dívida ao longo do período. Para 2026, o documento projeta que a dívida encerrará o ano entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões. Com a dívida já em R$ 9,03 trilhões ao final de maio — e com mais sete meses de emissões e incorporação de juros pela frente —, o cenário aponta para que a marca de R$ 10 trilhões seja alcançada antes do final do ano, possivelmente ainda no terceiro trimestre. Seria outro marco histórico — e um número que, inevitavelmente, dominará o debate sobre a sustentabilidade das finanças públicas nos meses que antecedem as eleições de outubro de 2026.