
O empresário Luciano Hang, fundador da rede Havan, defendeu um modelo de país mais descentralizado durante entrevista ao Grupo ND. Na avaliação dele, o Brasil deveria adotar uma estrutura semelhante à dos Estados Unidos, com maior autonomia para estados e municípios definirem regras relacionadas à economia, educação, segurança e outras áreas. A entrevista foi concedida nesta sexta-feira (26) ao repórter Alexandre Mendonça, na sede da Havan, em Brusque, Santa Catarina.
O que Hang critica no modelo atual
Segundo Hang, o atual modelo de política brasileiro concentra excessivamente as decisões em Brasília e reduz a capacidade dos estados de desenvolver soluções adequadas às suas próprias realidades. “A República Federativa do Brasil deveria ser uma verdadeira federação, onde cada estado tivesse o poder de legislar sobre sua economia, sobre a parte criminal, sobre a parte educacional”, afirmou.
Para o empresário, a diversidade econômica, cultural e social do país torna inadequada a adoção de regras uniformes para todas as regiões. “Cada estado é um estado, cada cidade é uma cidade. Cada uma tem suas tradições, suas realidades e seus desafios”, disse.
O que é federalismo e por que o debate importa
O federalismo é o sistema de organização política em que o poder é dividido entre um governo central e governos regionais — no Brasil, a União, os estados e os municípios. A Constituição de 1988 criou uma federação, mas com forte concentração de poder e de recursos em Brasília. O Brasil arrecada tributos de forma centralizada — boa parte pelo governo federal — e depois redistribui aos estados e municípios por meio de fundos e transferências, o que cria uma dependência dos governos locais em relação ao governo central e limita sua capacidade de tomar decisões autônomas.
Nos Estados Unidos — o modelo citado por Hang — o federalismo funciona com maior autonomia dos estados: cada um pode ter sua própria legislação trabalhista, tributária, educacional e penal dentro dos limites constitucionais federais, o que permite experimentos de políticas públicas em escala menor antes de serem adotados em nível nacional. A discussão sobre aprofundar o federalismo no Brasil é antiga e recorrente, especialmente em estados do Sul e do Sudeste que se sentem prejudicados pela forma como os recursos arrecadados são redistribuídos.
Balneário Camboriú como exemplo de parceria público-privada
Durante a entrevista, Hang citou Balneário Camboriú como um exemplo de desenvolvimento impulsionado pela parceria entre iniciativa privada e poder público. Segundo o empresário, a cidade apostou em políticas favoráveis ao empreendedorismo e à expansão imobiliária, o que teria contribuído para seu crescimento econômico nas últimas décadas. “Balneário Camboriú acreditou que o empresariado podia fazer diferente. Empresários e poder público pensando em fazer melhor”, afirmou.
Na visão de Hang, o modelo adotado no município acabou influenciando cidades vizinhas, como Itapema, Porto Belo, Penha e Balneário Piçarras, que também passaram a registrar forte expansão imobiliária e econômica.
Balneário Camboriú tem o metro quadrado mais caro do Brasil segundo o índice FipeZAP, e Itapema é o segundo mais caro — dados que sustentam o argumento de Hang sobre o impacto do modelo de desenvolvimento da região no mercado imobiliário circundante. O crescimento de Balneário nas últimas décadas combinou uma regulação urbanística permissiva à altura das construções — que resultou nas icônicas torres à beira-mar —, incentivos ao turismo e ao setor de serviços e atração de investimentos privados de alto padrão.
Burocracia como obstáculo ao crescimento
Hang também associou o desenvolvimento de Santa Catarina à liberdade econômica e criticou o excesso de burocracia no país. Para ele, a ampliação da máquina pública dificulta investimentos e atrasa o crescimento. “A burocracia é a mãe da corrupção e responsável pelo atraso do nosso país. Os burocratas inventam moda e vivem da burocracia”, declarou.
O empresário afirmou acreditar no liberalismo econômico como caminho para estimular investimentos e geração de renda. “Eu acredito no liberalismo econômico. O que é isso? É menos burocracia, menos estado, mais o cidadão. Que as pessoas possam sonhar, fazer planejamento, acreditar e realizar”, disse.
A autonomia local como motor do desenvolvimento
Ao defender maior autonomia regional, Hang argumentou que estados e municípios teriam melhores condições de criar políticas alinhadas às suas necessidades específicas. Para ele, dar mais liberdade para empreendedores e gestores locais favorece o crescimento econômico e amplia as oportunidades de desenvolvimento. “Se você dá liberdade para as pessoas produzirem, construírem, sonharem e realizarem, quem ganha é o município”, completou.
Internacionalização da Havan: viagem ao Paraguai
A entrevista ocorre também na véspera de uma viagem do próprio Hang ao Paraguai, onde o empresário se reunirá com o presidente do país, Santiago Peña, para discutir a internacionalização da rede Havan. A expansão para o exterior representaria um passo inédito na história da empresa, fundada em Brusque em 1986 e hoje com mais de 60 lojas espalhadas pelo Brasil — todas com as características bandeiras verde, amarela e o busto da Estátua da Liberdade que se tornaram a identidade visual da marca. A combinação de expansão internacional com o discurso liberal e federalista que Hang apresentou nesta entrevista posiciona o empresário como uma voz relevante do empresariado conservador catarinense num momento em que o debate sobre o papel do Estado na economia está no centro da disputa eleitoral de outubro de 2026.