
A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (18 de junho) a nona fase da Operação Compliance Zero, que investiga o esquema de fraudes do Banco Master, mirando desta vez o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado. A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, relator do caso no STF, e aponta indícios de que o parlamentar teria recebido vantagens econômicas indevidas, direta ou indiretamente, por meio de familiares, pessoas de confiança e empresas ligadas ao grupo investigado.

Quem é Augusto Ferreira Lima e qual é a conexão com Wagner
No centro da investigação está Augusto Ferreira Lima, gestor financeiro descrito pela PF como o principal interlocutor privado de Jaques Wagner dentro do universo do Banco Master. Augusto é dono do Banco Pleno, liquidado pelo Banco Central em fevereiro de 2026, e chegou a ser preso na primeira fase da investigação sobre as fraudes do Master, em novembro de 2025, sendo depois solto com tornozeleira eletrônica. Segundo a decisão de Mendonça, a PF investiga uma “possível relação ilícita entre Augusto Ferreira Lima e Daniel Bueno Vorcaro, e o senador Jaques Wagner”. Para os investigadores, a relação entre Wagner e Augusto seria antiga, próxima e marcada por confiança pessoal — o que teria aberto espaço para tratativas reservadas em favor de interesses do Banco Master.
O apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador
A investigação considera mais relevante o episódio envolvendo a compra de um apartamento no edifício Poème Horto, em Salvador, avaliado em R$ 2,45 milhões. Segundo a investigação, o próprio senador escolheu o imóvel num bairro nobre de Salvador e enviou os dados do empreendimento para o banqueiro. O grupo teria então utilizado operadores financeiros ligados ao banco para efetivar a transação. A PF afirma que as negociações teriam ocorrido por meio de familiares e intermediários para camuflar a circulação dos recursos.
A versão do senador é diferente: Wagner admitiu conhecer o banqueiro e confirmou ter pedido que ele comprasse o apartamento em construção para que, no futuro, pudesse readquiri-lo para sua filha, destacando que o imóvel nunca esteve em seu nome.
Voos particulares, ingressos de show e repasse de R$ 3,5 milhões
Além do imóvel, a representação da PF lista outros benefícios: o uso gratuito de jatinhos particulares vinculados a Augusto Lima ou ao Banco Master, o recebimento de ingressos para shows internacionais de alto valor — avaliados em R$ 63 mil, para um espetáculo em Los Angeles, nos Estados Unidos — e um repasse de R$ 3,5 milhões à BN Financeira Ltda., empresa ligada ao núcleo familiar do parlamentar. Segundo a PF, as primeiras vantagens recebidas por Wagner teriam sido as viagens em aviões particulares ligados a Augusto Lima e ao Master, já em 2023.
A possível conexão com a atuação legislativa do senador
A parte mais sensível da investigação, do ponto de vista institucional, é a suspeita de que esses benefícios estariam conectados à atuação legislativa de Wagner em temas de interesse direto do Banco Master. A representação da PF aponta possíveis conexões entre interesses do banco e a atuação legislativa do senador, mencionando sua participação em discussões sobre o crédito consignado — tema que, segundo a PF, ganhou relevância em período próximo ao início de relações contratuais entre o Banco Master e a BN Financeira, a empresa vinculada à família do parlamentar.
Outro foco da investigação envolve uma PEC com repercussões sobre o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — o mecanismo que protege depositantes de bancos em caso de falência ou intervenção, e cujo limite de cobertura é diretamente relevante para uma instituição como o Master, que dependia fortemente de captação via CDBs garantidos pelo FGC. De acordo com a PF, mensagens e registros telefônicos mostram contatos entre executivos ligados ao Banco Master, assessores do senador e o próprio Wagner em datas próximas à apresentação da proposta. Em um dos episódios citados pela PF, no dia 13 de agosto de 2024 — data da inclusão de uma emenda relacionada ao tema —, Augusto Lima realizou uma ligação de mais de uma hora com interlocutores ligados ao gabinete do senador.
O que a investigação apura e quais provas foram reunidas
A investigação apura, em tese, crimes financeiros, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa e delitos conexos. A decisão de Mendonça afirma que os autos reúnem mensagens, áudios, chamadas de voz, documentos contratuais, comprovantes de transferência, registros societários, metadados, planilhas de pagamento e comunicações extraídas de celulares apreendidos. O Ministério Público Federal também se manifestou pelo prosseguimento da investigação.
A defesa de Wagner: dinheiro declarado e imóvel nunca em seu nome
Sobre o dinheiro apreendido durante as buscas, a assessoria do senador informou que os valores são legais, declarados no Imposto de Renda e guardados em envelopes oficiais por se tratarem de sobras de diárias pagas pelo próprio Senado para viagens internacionais. Wagner garantiu que manterá sua pré-candidatura e que continuará na liderança do governo no Senado enquanto contar com a confiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em nota oficial, a defesa do banqueiro Augusto Lima considerou as buscas desnecessárias, argumentando que ele está há meses à disposição da Justiça e que o andamento do processo servirá para comprovar a total legalidade de todos os seus negócios.