Com R$ 1 bilhão investido e El Niño se formando, Santa Catarina tenta virar a chave da prevenção

Santa Catarina investe R$ 1 bilhão contra o risco do El Niño, acelera obras  em barragens, limpa rios, entrega 641 pontes e 126 caminhões-pipa e prepara  295 municípios para chuvas intensas, alagamentos

O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento das águas do Pacífico, pode elevar o volume de chuva no Sul e no Sudeste do Brasil e aumentar o risco de enchentes, enxurradas e deslizamentos. Segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus da União Europeia, este El Niño pode ser “forte a ponto de quebrar recordes”. A Organização Meteorológica Mundial estima 90% de chance de que seus efeitos já sejam sentidos no início do segundo semestre de 2026.

O maior investimento da história: R$ 1 bilhão

Santa Catarina entrou em 2026 com o maior pacote de investimentos da história em prevenção de desastres. Ao todo, R$ 1 bilhão foi destinado à Defesa Civil, valor 292% maior que o previsto no ano anterior, de R$ 342 milhões.

Os recursos se distribuem por múltiplas frentes. O estado repassou mais de R$ 64 milhões para as Defesas Civis dos 295 municípios para aquisição de veículos 4×4, drones de mapeamento e equipamentos tecnológicos. Em janeiro, foram liberados mais de R$ 10 milhões para obras estruturantes como desassoreamento, contenção e estabilização de margens de rios. Em maio, o governador Jorginho Mello decretou estado de alerta climático por 180 dias. Camboriú foi a primeira cidade a decretar situação de emergência preventiva, destinando mais de R$ 5 milhões para máquinas e equipamentos. Gaspar chegou a cancelar a Expofeira 2026 para priorizar a prevenção, e Agrolândia e Rio do Oeste também cancelaram eventos para destinar recursos ao enfrentamento do El Niño.

A virada de chave: de reagir para prevenir

Segundo o secretário da Defesa Civil, Fabiano de Souza, a instituição tenta inverter uma lógica histórica: se no passado estava concentrada na resposta emergencial e na reconstrução após tragédias, agora o objetivo principal é agir antes que elas aconteçam. “Precisamos estimular a cultura preventiva na população para que ela esteja preparada quando um fenômeno acontecer”, afirma.

Entre 2023 e 2026, os investimentos em prevenção somaram mais de R$ 900 milhões, enquanto os recursos destinados à resposta a desastres ficaram em R$ 40,7 milhões — uma relação que inverte o padrão histórico de destinar muito mais dinheiro para reconstruir do que para proteger. Isso é relevante porque um relatório do TCE-SC já havia documentado que cada dólar investido em prevenção evitaria o gasto de dez dólares na resposta ao desastre.

A rede de monitoramento passou de 42 estações hidrometeorológicas em 2024 para 172 em 2025. O estado tornou-se o único do Brasil com cobertura por radares meteorológicos em todo o território — com equipamentos em Lontras, Chapecó, Joinville e Araranguá — e tem antena própria para recepção direta de imagens do satélite GOES-19. Em 2025, a Defesa Civil realizou o maior simulado de resposta a desastres do Brasil, com participação de 294 cidades. O sistema de alertas por Cell Broadcast chegou a enviar mais de 95 milhões de SMS em 2025.

Por que as famílias ainda ficam nas áreas de risco

Seu Irineu, que mora no bairro Budag há quase 70 anos, perdeu tudo na enchente de 2011 e ainda vive num local sujeito a alagamentos. Assim como ele, Luana permanece no mesmo bairro. A permanência de famílias em locais de risco envolve uma combinação de fatores: o alto preço dos imóveis; o fato de a casa ser uma herança passada de geração em geração; estar perto do trabalho e da escola dos filhos; a dificuldade de mudar de rotina e a falta de alternativas acessíveis.

“A gente não mora aqui por opção. É porque o morro está muito caro, não tem como sair da baixada”, conta Luana. Em Rio do Sul, dos 24 bairros da cidade, apenas um não apresenta risco de alagamento.

Para o biólogo Paulo Horta, especialista em mudanças climáticas, a solução definitiva seria retirar essas famílias das regiões de risco, mas o problema vai além: a ocupação reduz os espaços naturais de drenagem — “não tem uma área para a água escorrer, hoje os rios estão circunscritos por paredes e muros” —, o que diminui o tempo de resposta e aumenta os riscos em cascata.

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