Com 41 designações em dois mandatos, Trump é o presidente americano que mais classificou grupos como terroristas — PCC e CV entram para uma lista histórica

Soberania em risco: EUA podem classificar PCC e CV como terroristas;  especialistas temem intervenção | Brasil de Fato

Donald Trump consolidou neste segundo mandato um registro histórico: é o presidente dos Estados Unidos que mais classificou organizações como terroristas estrangeiras desde a criação da lista, em 1997. Somando os dois períodos no poder, o republicano acumula 41 designações ou alterações na lista do Departamento de Estado — número que supera com folga os 28 registros de Barack Obama ao longo de oito anos de governo e os 16 de George W. Bush. A inclusão do PCC e do Comando Vermelho, que entrou em vigor nesta sexta-feira (5 de junho), é uma das adições mais recentes dessa série histórica.

O que é uma lista de organizações terroristas estrangeiras e como ela surgiu

A lista de Organizações Terroristas Estrangeiras foi criada durante o governo Bill Clinton, em 1997, como instrumento para combater grupos previstos em ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos. O mecanismo, previsto na Lei Antiterrorismo e Pena de Morte Efetiva de 1996, permite que o Departamento de Estado designe organizações estrangeiras que praticam o terrorismo e cujas atividades ameacem os cidadãos ou a segurança nacional americana.

A designação tem consequências jurídicas imediatas e automáticas: torna ilegal para qualquer cidadão ou empresa americana apoio material ao grupo, bloqueia ativos no sistema financeiro americano e proíbe a entrada de membros identificados nos Estados Unidos. É um dos instrumentos mais poderosos da política externa americana porque seu alcance é global — qualquer transação financeira que passe pelo sistema de compensação em dólares fica sujeita ao escrutínio e ao bloqueio das autoridades americanas.

A evolução histórica da lista: de jihadistas a cartéis

Inicialmente, a lista era composta principalmente por organizações do Oriente Médio, como Hamas, Hezbollah e o Partido dos Trabalhadores do Curdistão. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, George W. Bush ampliou o uso do mecanismo, incorporando grupos ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, num total de 16 designações ao longo de seus dois mandatos.

Obama promoveu 28 designações ou atualizações ao longo de oito anos de governo, técnicas principalmente em filiais da Al-Qaeda e do Estado Islâmico na África e no Oriente Médio — incluindo o Boko Haram, o Estado Islâmico da Líbia, o Estado Islâmico do Sinai e a Al-Qaeda na Península Arábica. Já Joe Biden desenvolveu uma postura mais restrita: entre 2021 e 2025 foram apenas seis novas designações, especificações na África, América do Sul e Europa.

Trump representa uma ruptura nesse padrão. A partir de 2025, seu governo ampliou o uso da ferramenta para atingir não apenas organizações jihadistas, mas também cartéis de drogas e facções criminosas transnacionais, aproximando o combate ao narcotráfico e ao crime organizado da estratégia antiterrorismo adotada pelos Estados Unidos. Em seu segundo mandato, foram 29 designações ou alterações na lista — uma média de mais de um mês, num ritmo sem precedentes na história do mecanismo.

O que mudou na estratégia de Trump

A transformação mais significativa na abordagem de Trump em relação à lista não é quantitativa — é qualitativa. Ao incluir cartéis mexicanos, facções criminosas latino-americanas e grupos de crime organizado transnacional na mesma lista que abriga o Hamas, a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, o governo Trump apagou uma distinção que havia sido mantida por seus antecessores: a separação entre terrorismo de motivação ideológica ou religiosa e crime organizado de motivação econômica.

Essa mudança tem implicações geopolíticas enormes. Ela significa que os Estados Unidos passaram a tratar o narcotráfico e o crime organizado transnacional como questões de segurança nacional — e não apenas de aplicação da lei —, o que justifica o uso de instrumentos mais agressivos: avaliações financeiras globais, pressão diplomática sobre países que “abrigam” as organizações e abertura de precedentes para ações de inteligência além de suas fronteiras.

O PCC e o CV num contexto mais amplo

Com a entrada do PCC e do Comando Vermelho, a lista passa a incluir, ao lado do Hamas e do Hezbollah, grupos como o Cartel de Sinaloa, o Cartel Jalisco Nova Geração, o Trem de Aragua venezuelano e a MS-13 salvadorenha. A inclusão das facções brasileiras ao lado dos maiores cartéis mexicanos e de grupos jihadistas do Oriente Médio representa um posicionamento geopolítico explícito: para o governo Trump, o crime organizado brasileiro representa uma ameaça à segurança dos Estados Unidos elaborada às organizações que há décadas dominam o debate antiterrorismo americano.

Para o Brasil, a entrada na lista de 41 grupos de Trump é um dado de contexto que vai além da discussão sobre o PCC e o CV especificamente. Ela revela que o mecanismo que foi criado em 1997 para combater grupos como o Hamas evoluiu, sob a liderança de Trump, para se tornar um instrumento de política externa de amplo espectro – capaz de ser direcionado a qualquer organização que o governo americano considere uma ameaça, independentemente de sua natureza ou motivação. E que, no momento em que as relações entre Brasil e Estados Unidos passam pela maior tensão dos últimos anos, estar na lista de Trump tem um peso político que vai muito além das consequências jurídicas formais da designação.

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