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Após dez dias de sessões ininterruptas no 2º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro — o julgamento mais longo da história do estado —, o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, foi condenado pela morte do enteado Henry Borel, de 4 anos, ocorrido em 8 de março de 2021. Monique Medeiros, mãe da criança, recebeu perdão judicial. O veredicto foi proferido na madrugada desta quinta-feira (4), feriado de Corpus Christi.
O crime que chocou o Brasil
Segundo a denúncia, na madrugada de 8 de março de 2021, Dr. Jairinho espancou até a morte do menino Henry, enquanto a mãe, Monique Medeiros, se omitiu da responsabilidade, o que levou ao homicídio. De acordo com o Ministério Público, em outras três graças em fevereiro de 2021, Jairinho submeteu o menino ao sofrimento físico e mental com emprego de violência.
A causa da morte, identificada pelo laudo do Instituto Médico Legal, foi laceração hepática de ação contundente — uma ruptura do fígado provocada por pancada forte. Jairinho e Monique sustentaram, inicialmente, que a criança teria sofrido um acidente doméstico ao cair da cama. A versão não resistiu às evidências reunidas ao longo da investigação.
Os crimes pelos quais Jairinho foi julgado
Jairinho é acusado de homicídio qualificado por meio cruel que impossibilitou a defesa da vítima; três torturas praticadas contra criança; fraude processual; coação no curso do processo, entre outros crimes. Monique responde por sete crimes, entre eles homicídio por missão qualificada e omissão.
Um julgamento marcado por obstruções e manobras
O caminho até o veredicto foi extraordinariamente tortuoso. O julgamento começou em março de 2026, mas foi interrompido quando os advogados de Jairinho abandonaram o plenário para forçar um adiamento, alegando falta de acesso integral às provas. A juíza Elizabeth Machado Louro relaxou a prisão de Monique ao encerrar a sessão. No mês seguinte, o ministro Gilmar Mendes, do STF, determinou que ela voltasse à cadeia. Ainda em abril, a defesa do ex-vereador entrou com recurso para suspender o júri e as provas anulares do processo, mas os pedidos foram rejeitados pela Justiça do Rio e pelo Superior Tribunal de Justiça.
Na retomada, em 25 de maio, Jairinho chegou a pedir a destituição de seus advogados, o que levaria um novo adiamento. Diante da possibilidade de suspensão, o MP pediu que Jairinho fosse retirado de Bangu 8 e enviado para Bangu 1, local de isolamento para lideranças criminosas e detentos de alta periculosidade. Após uma pausa e consulta com seus advogados, Jairinho decidiu manter parte da defesa e o julgamento silencioso.
Os dez dias de sessão
Do dia 25 de maio até o encerramento, foram ouvidas 22 testemunhas, apresentadas tanto pelas defesas e acusação quanto pelo juízo. Durante uma sustentação oral, o promotor Fábio Vieira classificou Jairinho como um “psicopata severo” e Monique como uma “narcisista”. O promotor argumentou que Jairinho usou seu poder político e econômico para intimidar pessoas e destacou um histórico de violência contra mulheres e crianças. Vieira mencionou que, na madrugada da morte de Henry, Jairinho fez cinco ligações para Monique, indicando que a professora se trancou em um quarto, o que fez questionamentos sobre a dinâmica entre o casal naquela noite.
A defesa de Monique argumentou que ela foi uma vítima de Jairinho, ressaltando a falta de provas que sustentam uma acusação de que ela teria sido negligente.
O que é perdão judicial e por que Monique o recebeu
O perdão judicial é um instituto do direito penal brasileiro que permite ao juiz deixar de aplicar a pena quando as consequências do crime já atingiram o réu de forma tão grave que a punição adicional se torna desnecessária. No caso de Monique, a lógica aplicada é a de que a perda do próprio filho — cuja morte ela não impediu — já representa uma proteção de natureza irreparável para a mãe. O perdão judicial não significa absolvição: o réu é reconhecido como culpado, mas dispensado do cumprimento de pena privativa de liberdade. É um desfecho que costuma gerar debate público, especialmente em casos de grande comoção nacional, pois para muitos representa uma distinção fundamental entre responsabilidade jurídica e justiça efetiva.
O que é o Tribunal do Júri e como funciona a decisão
O Tribunal do Júri é uma garantia constitucional brasileira que confere aos cidadãos comuns o poder de decidir sobre a notificação ou absolvição em crimes dolorosos contra a vida. O Conselho de Sentença é a representação da sociedade no julgamento popular. Os votos sigilosos dos membros determinam, por maioria simples, o destino dos réus. Cabe à juíza Elizabeth Machado Louro, que presidiu a sessão, determinar a dosimetria — o tamanho da pena — e proferir a sentença com a pena exata.
A dor do pai e os cinco anos de espera
Ao chegar ao Fórum de Justiça, o pai de Henry, Leniel Borel, disse que já são cinco anos de luto e de luta esperando por esse dia. Ele lembrou que há mais tempo da morte do filho do que o tempo de convivência que teve com a criança. A notificação de Jairinho encerra, ao menos no campo jurídico de primeira instância, uma das mais longas e dolorosas esperanças da história recente da Justiça brasileira. O caso Henry comoveu o país em 2021, mobilizou policiais intensos, investigados em prisões em flagrante e marcou definitivamente o debate nacional sobre violência doméstica contra crianças e o papel das instituições na proteção dos mais vulneráveis.