
O ministro do STF André Mendonça cobrou da Polícia Federal o resultado das quebras de sigilo de investigados pela Operação Sem Desconto. O inquérito apura descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. Um dos materiais cobrados pelo magistrado foi o da quebra de sigilo da empresária Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, um dos filhos mais velhos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O contexto: quem é Roberta Luchsinger e o que ela tem a ver com o caso
Roberta Luchsinger é uma empresária que se tornou peça central nas investigações da chamada “Farra do INSS” por sua posição como intermediária entre o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, e Lulinha. Segundo as investigações, ela recebeu R$ 1,5 milhão do Careca do INSS em cinco parcelas de R$ 300 mil, alegadamente por serviços de consultoria relacionados à regulação do mercado de canabidiol. Ela foi quem apresentou o lobista ao filho do presidente, e os investigadores apuram se parte dos recursos que ela recebeu pode ter sido repassada a Lulinha. Em seu depoimento à PF, Roberta negou qualquer repasse ao amigo. O Careca do INSS é apontado como um dos principais operadores do esquema de descontos ilegais em benefícios de aposentados e pensionistas — esquema que causou um rombo bilionário na Previdência Social.
A mudança que surpreendeu Mendonça
Segundo apurou a coluna, a cobrança foi feita por Mendonça em meados de maio, após a PF mudar a investigação da Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários para a Coordenação de Inquéritos em Tribunais Superiores (Cinq). A mudança de área provocou a saída do delegado Guilherme Figueiredo Silva da coordenação do inquérito. O delegado está à frente da chefia da Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários desde junho de 2025.
A substituição feita pela PF surpreendeu Mendonça. Relator do inquérito no Supremo, o ministro relatou a interlocutores que ficou sabendo da mudança por meio de um dos advogados que estão atuando no caso.
O fato de o relator de um inquérito no STF ter tomado conhecimento de uma mudança estrutural na investigação por meio de um advogado de defesa — e não por comunicação formal da Polícia Federal — é um dado significativo. Indica que a corporação realizou a troca de forma silenciosa, sem comunicar previamente o ministro responsável pelo caso, o que explica a reação de cobrança de Mendonça.
O que é a Cinq e por que a mudança gerou dúvidas
A Coordenação de Inquéritos em Tribunais Superiores (Cinq) é a unidade da PF responsável por coordenar investigações que tramitam diretamente no STF e no STJ — ou seja, casos em que os investigados têm foro privilegiado ou em que o próprio tribunal superior é o órgão competente. A transferência do caso INSS para essa coordenação pode ter lógica burocrática legítima, já que o inquérito corre no STF sob relatoria de Mendonça. Mas a forma como foi feita — sem comunicação prévia ao relator — e em meio a uma investigação de alta sensibilidade política, envolvendo o filho do presidente, gerou desconfiança e motivou a reação do ministro.
De acordo com a PF, a mudança de área do inquérito foi uma questão “burocrática” e visa “assegurar maior eficiência e continuidade às investigações”. Segundo a corporação, a Cinq possui melhor estrutura para cuidar do caso.
As medidas tomadas por Mendonça
Após a troca, Mendonça convocou reunião com integrantes da Polícia Federal. O magistrado também pediu relatório detalhado sobre todos os que foram alvo da operação, para saber em que pé andam as investigações.
As duas medidas — a reunião convocada e o pedido de relatório detalhado — revelam um ministro que está exercendo ativamente o controle judicial sobre o inquérito e que não está disposto a aceitar mudanças na estrutura da investigação sem explicações formais e sem garantia de que o andamento dos trabalhos não será prejudicado. O pedido de relatório sobre todos os alvos da operação sugere que Mendonça quer uma visão consolidada do estado atual das investigações — inclusive dos materiais de quebra de sigilo que ainda não chegaram ao STF — antes de tomar qualquer decisão processual.
O episódio se soma a uma investigação que já está no centro do debate político brasileiro há meses: a Operação Sem Desconto, que apura o maior esquema de fraude da Previdência Social da história do país, com tentáculos que chegam ao círculo de amizades do filho mais velho do presidente da República. Com Mendonça cobrando documentos, convocando reuniões e exigindo transparência da PF, o inquérito entra numa nova fase de pressão judicial — num momento em que o governo Lula já enfrenta turbulências simultâneas nas frentes diplomática, comercial e de segurança pública.