
Num movimento inédito na política brasileira, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro divulgou nesta terça-feira (2 de junho) uma carta formal enviada ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, pedindo que o governo americano não aplique as tarifas de 25% propostas pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) sobre produtos brasileiros. O documento torna pública uma articulação que até então era reservada e expõe ao mesmo tempo o alcance e os limites da estratégia de Flávio junto ao governo Trump.
O que diz a carta
No documento, Flávio escreveu: “A imposição de novas tarifas causaria sérios prejuízos ao povo brasileiro — os mesmos cidadãos que veem os Estados Unidos como um parceiro e um amigo. Portanto, escrevo para reiterar, formalmente, o pedido que lhe fiz pessoalmente: que os Estados Unidos não imponham tarifas ao Brasil.”
O documento oficial detalha as preocupações do parlamentar com os reflexos socioeconômicos internos e destaca a importância da cooperação diplomática e da segurança entre os dois países americanos.
Para fundamentar seu pedido, Flávio pintou um quadro detalhado da situação econômica do Brasil. O senador apontou que um recorde de 81,7 milhões de brasileiros está inadimplente — quase metade da população adulta — e que os compromissos com dívidas consomem uma parcela sem precedentes da renda familiar. Do lado das empresas, os pedidos de recuperação judicial dispararam para o recorde histórico de 2.466 companhias em 2025, enquanto 8,7 milhões de contribuintes empresariais estavam inadimplentes no início de 2026.
A estratégia retórica da carta é clara: Flávio usa os dados da deterioração econômica sob o governo Lula — que sua campanha atribui às políticas do PT — para argumentar junto ao governo Trump que as tarifas puniriam o povo brasileiro, não o governo. É uma tentativa de separar o eleitorado brasileiro do governo que representa, criando uma narrativa de que os trabalhadores e empresários seriam as vítimas colaterais de uma disputa entre Washington e Brasília da qual não têm culpa.
O contexto imediato que motivou a carta
A declaração de Flávio Bolsonaro pretende afastá-lo da acusação de que a visita ao presidente norte-americano Donald Trump na última terça-feira (26 de maio) tenha influenciado para a ameaça do USTR ao comércio brasileiro. As alegações se intensificaram após a manifestação de Trump na Truth Social com menção à reunião com Flávio Bolsonaro — a publicação ocorreu horas após o país recomendar o tarifaço a partir de um documento com severas críticas ao Pix.
O timing é politicamente constrangedor para o pré-candidato: menos de uma semana após sua visita à Casa Branca, onde se reuniu com Trump, Rubio e o vice-presidente J.D. Vance, o USTR anuncia a recomendação de tarifas de 25% sobre o Brasil. Trump publicou na Truth Social sobre sua reunião com Flávio exatamente no mesmo período. A sequência de eventos criou uma narrativa que o PT rapidamente aproveitou para associar Flávio às tarifas — e que o senador agora tenta desfazer com a carta pública a Rubio.
O que é a Seção 301 e em que fase está o processo
A decisão dos EUA de impor novas tarifas de 25% sobre produtos brasileiros foi anunciada como conclusão de uma investigação sobre supostas práticas desleais do Brasil, com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana. A Seção 301 autoriza o governo americano a investigar e retaliar práticas comerciais de outros países consideradas injustas. Entre os alvos da investigação estão o Pix — acusado de favorecer empresas brasileiras em detrimento de operadoras americanas —, políticas de propriedade intelectual, etanol e desmatamento.
Embora o processo atual configure uma etapa inicial de consulta pública e ritos técnicos, com desfecho legal previsto para o mês de julho, a medida gerou alertas no cenário político nacional. Isso significa que as tarifas ainda não foram formalmente impostas — mas a recomendação do USTR é o passo que antecede a decisão final do presidente Trump, e há uma audiência pública marcada para 6 de julho.