
Presidente do Banco Central abriu a IV Conferência Anual da autoridade monetária alertando para riscos da guerra no Oriente Médio, do 4º choque de oferta em seis anos e da “dissonância” entre os índices oficiais e a percepção real do custo de vida pela população
O presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, afirmou nesta quarta-feira, 13 de maio, que a autoridade monetária enfrenta dificuldade para distinguir choques temporários de oferta dos chamados “efeitos de segunda ordem”, que pressionam a inflação de forma mais persistente. A declaração ocorreu durante a abertura da IV Conferência Anual do Banco Central, em Brasília.

“O barco foi desenhado para outra tempestade”
Galípolo reconheceu que a série de choques externos que o BC vem enfrentando vai além do que a autoridade monetária costuma lidar. “Nosso barco foi desenhado para enfrentar outro tipo de tempestade”, afirmou. Mesmo assim, ressaltou que a autarquia seguirá vigilante aos “efeitos de segunda ordem” e não perderá de vista o objetivo principal de controlar a inflação.
O quarto choque de oferta em menos de seis anos
Galípolo ainda destacou que esse é o quarto choque de oferta em menos de seis anos, afetando diretamente a percepção da população sobre o custo de vida. Para ele, esse cenário cria um desafio adicional para a credibilidade das autoridades monetárias.
Galípolo citou os impactos da pandemia de covid-19, da guerra na Ucrânia, do tarifaço internacional e, agora, do conflito no Oriente Médio. Segundo o presidente do BC, há um descompasso entre a atuação das autoridades monetárias e a percepção da população sobre o custo de vida. Enquanto os bancos centrais trabalham para controlar o ritmo de alta da inflação, consumidores continuam sentindo os efeitos acumulados do aumento de preços.
O desafio dos efeitos de segunda ordem
Segundo Galípolo, o desafio do BC é evitar que aumentos concentrados em determinados produtos se espalhem para o restante da economia, pressionando os preços de forma mais persistente e exigindo uma política monetária mais rígida.
“Neste momento, conseguir separar o que é efetivamente um choque de oferta, provocado pelo conflito geopolítico ou por efeitos climáticos, dos efeitos de segunda ordem, que exigem ainda mais vigilância, não é uma abordagem simples. Mas o BC seguirá comprometido com o controle do processo inflacionário”, afirmou durante a abertura da Conferência Anual do BC.
A “dissonância” entre inflação oficial e percepção popular
O presidente do BC também disse que existe uma “dissonância” entre os índices oficiais de inflação e a percepção das pessoas sobre o aumento do custo de vida. Segundo ele, isso pressiona a credibilidade das autoridades monetárias.
Galípolo declarou ainda que o Banco Central não pretende abandonar o objetivo de controlar a inflação, mesmo em um cenário de expectativas desancoradas e mercado de trabalho aquecido.
Expectativas ainda acima da meta
O presidente da autoridade monetária destacou que o cenário brasileiro torna esse processo mais delicado, devido às expectativas de inflação ainda acima da meta de 3%. O IPCA de abril, divulgado na semana passada, registrou alta de 0,67% — o maior resultado para o mês desde 2022 — e acumulado de 4,39% nos últimos 12 meses, bem acima do centro da meta.
A promessa de não se desviar do mandato
“O Banco Central, toda vez que for colocado em desafio, vai seguir dando essa resposta. Não vai se desviar daquilo que é o seu objetivo, que é o controle do processo inflacionário”, afirmou Galípolo.