Árabes e Temer: os bastidores da tentativa fracassada de vender o Banco Master

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Reportagem do Estadão revela rede de personagens envolvidos na operação bilionária que nunca se concretizou; PF suspeita que negócio pode ter sido montado para camuflar fuga de Vorcaro


Passados cinco meses da anunciada compra do Banco Master pela Fictor Holding Financeira, enfim aparecem os nomes dos supostos investidores dos Emirados Árabes Unidos, além de outros personagens envolvidos na transação que levou à prisão de Daniel Vorcaro. Entre eles, estão o ex-presidente Michel Temer (MDB).


O dia em que tudo veio à tona

A Polícia Federal prendeu Vorcaro pela primeira vez em 17 de novembro de 2025, quando ele embarcaria em um jatinho em Guarulhos, rumo a Dubai, nos Emirados. A PF viu risco de fuga. Horas antes, a Fictor anunciou a compra do Master, de Vorcaro, com aporte imediato de R$ 3 bilhões e participação de investidores dos Emirados. Agentes desconfiam que o negócio visava camuflar a fuga.

O plano previa que o banco, depois da operação, passaria a se chamar Banco Fictor. O anúncio, porém, foi atropelado pelos fatos. Horas depois da assinatura do contrato, Daniel Vorcaro foi preso, e no dia seguinte o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master. A compra acabou suspensa logo em seguida.


O papel de Temer: de Abu Dhabi ao escritório de advocacia

Temer participou diretamente de articulações para atrair investidores estrangeiros, especialmente nos Emirados Árabes Unidos, em meio à crise que culminou na liquidação da instituição pelo Banco Central. O ex-presidente participou de reuniões em Abu Dhabi e chegou a apresentar o negócio ao sheik Abdullah Bin Rashid Al Mualla, integrante da realeza local.

Em entrevistas, Temer confirmou que foi chamado pelo governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), para ajudar a “azeitar” os termos da negociação que já estava na mira das autoridades.

O Banco Master declarou à Receita Federal que pagou R$ 10 milhões ao escritório de advocacia de Temer pelo serviço de mediação. O ex-presidente, no entanto, contesta o valor: afirma que recebeu R$ 7,5 milhões e que tudo foi feito dentro da legalidade, como uma atividade jurídica para tentar manter viva a negociação do Master com o BRB.


Contratos com irregularidades e CPFs de terceiros

O jornal diz ter obtido uma série de documentos, que vão de minutas de aquisição do Master a cartas supostamente assinadas por bilionários árabes e russos com a intenção de comprar o Master com a Fictor. Buharoon não tem identidade no Brasil. Abaixo de seu nome, consta o CPF do português Ludgero de Sousa, que tem empresas no Brasil, afirma ser representante da Royal Capital e é um conhecido intermediador de negócios no mundo árabe. Em suas redes sociais, Ludgero ostenta vida de viagens de jatinho, festas com sheiks e fotografias ao lado de jogadores de futebol e artistas internacionais.

Um sócio francês de Ludgero, Eric Leandri, tem sua assinatura atrelada ao CPF de um brasileiro: o mestre de jiu-jítsu Renzo Gracie, que é amigo de Ludgero e de integrantes da família real dos Emirados Árabes fãs de MMA.

Um contrato assinado na véspera do Natal de 2025 entre a gestora árabe Royal Capital e a Fictor previa a compra conjunta do banco, já liquidado. O documento, no entanto, apresentava irregularidades, como a associação de assinaturas a CPFs de terceiros, incluindo o do lutador Renzo Gracie.


A rede de intermediários

A matéria também descreve que Vorcaro percorreu diferentes frentes em busca de interessados. Além da Royal Capital, foram mencionados contatos com outros fundos e grupos estrangeiros, inclusive estruturas ligadas a investidores árabes e russos. Nesse circuito, apareceram intermediários como o advogado Bruno Burilli, o ex-dirigente do Master Antonio Marques de Oliveira Neto e Christopher Langner, que passou do jornalismo econômico para a intermediação de negócios em Abu Dhabi.


O BRB e o prejuízo bilionário

Em 28 de março de 2025, o Banco de Brasília (BRB) anunciou a compra de grande parte do Master, tendo o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), como maior defensor do negócio. Além de tentar comprar parte do Master, o banco público adquiriu cerca de R$ 12,2 milhões em papéis da instituição de Vorcaro — transação que causou prejuízo de ao menos R$ 6 bilhões ao BRB, agora em grave crise.

Já com o escândalo do Master no noticiário, soube-se que o escritório de advocacia de Ibaneis firmou um contrato de R$ 38,1 milhões, em maio de 2024, com o Reag, um fundo de investimentos do Master investigado pela PF por participação no esquema do banco de Vorcaro e até lavar dinheiro para a facção Primeiro Comando da Capital (PCC).

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