
Decisão publicada no Diário Oficial mantém imunizante acessível apenas para quem pode pagar até R$ 2 mil — justamente para a doença mais frequente em crianças menores de 1 ano no Brasil
O Ministério da Saúde decidiu não incorporar a vacina contra a meningite do tipo B ao Sistema Único de Saúde para crianças menores de 1 ano. A medida foi publicada no Diário Oficial da União nesta sexta-feira (17) e mantém o imunizante fora do calendário nacional de vacinação infantil — mesmo com o sorogrupo B sendo o mais frequente entre os casos de doença meningocócica no Brasil.
A decisão revela uma contradição difícil de justificar: o governo que se apresenta como defensor dos mais pobres nega gratuitamente a vacina contra exatamente o tipo de meningite que mais mata bebês brasileiros.

A doença mais perigosa fica sem cobertura pública
A doença meningocócica é uma emergência: pode evoluir para meningite ou sepse com rapidez extrema, levando ao óbito em 24 horas em muitos casos. No Brasil, em 2025, foram registrados 2.357 casos de meningite bacteriana, com 454 mortes. Além da letalidade, entre 10% e 20% dos sobreviventes sofrem sequelas graves como surdez, amputações ou comprometimentos neurológicos.
O sorogrupo B responde por 73% dos casos de meningite em menores de 1 ano no Brasil — exatamente a faixa etária que o governo decidiu deixar desprotegida na rede pública.
Proteção vira privilégio de quem tem dinheiro
Os pais que quiserem imunizar os filhos contra a meningite do tipo B precisarão recorrer a clínicas particulares. O valor por dose varia, em média, de R$ 600 a R$ 750. Considerando que o esquema inclui de duas a três doses no primeiro ano de vida, além de um reforço, o gasto total pode passar de R$ 2 mil.
Em outras palavras: a criança de família rica se vacina. A criança pobre, que depende do SUS, fica exposta a uma das infecções bacterianas mais letais da pediatria. Numa gestão que faz discursos diários sobre equidade e proteção social, a omissão chama ainda mais atenção.
O argumento do governo: o dinheiro não dá
A decisão da Conitec levou em consideração fatores econômicos e técnicos. Entre eles estão o alto custo da vacina e o impacto no orçamento público, além de análises que apontaram uma relação custo-efetividade desfavorável para inclusão ampla no sistema. Também pesaram incertezas sobre a duração da proteção oferecida pelo imunizante e seu impacto na redução da circulação da bactéria.
Segundo o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, embora a meningite B seja causada pelo sorogrupo mais comum no país, a doença não apresenta incidência considerada suficiente para justificar, neste momento, a vacinação universal diante do alto custo. Outro ponto decisivo é o orçamento do Programa Nacional de Imunizações, que precisa equilibrar recursos entre diferentes demandas.
O argumento, porém, soa vazio para os pais que viram um filho sucumbir à doença em menos de 24 horas — tempo que a meningite bacteriana frequentemente leva para matar.