
O Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição e última instância da Justiça brasileira, deveria ser sinônimo de sobriedade, imparcialidade e respeito institucional. No entanto, a recente iniciativa de promover eventos com influenciadores digitais para “melhorar a comunicação” da Corte levanta sérias dúvidas sobre as prioridades do STF — e sobre o uso de recursos públicos para fins que beiram o marketing político.

Dinheiro público para relações públicas?
A realização do evento “Leis e Likes”, que reuniu criadores de conteúdo com milhões de seguidores, não é apenas uma tentativa de aproximação com o público jovem. É, na prática, uma estratégia de gestão de imagem que se vale de influenciadores para suavizar a percepção negativa que parte da sociedade tem sobre o STF.
A pergunta que não quer calar: é papel do Judiciário investir em relações públicas? E mais — com que recursos? Em um país onde o sistema judiciário enfrenta gargalos estruturais, lentidão processual e falta de acesso à Justiça para milhões de brasileiros, gastar tempo e dinheiro com eventos de influência digital soa como um desvio de foco.
Justiça ou espetáculo?
A presença de influenciadores que fazem conteúdo humorístico ou político, alguns com vínculos ideológicos explícitos, transforma o STF em palco de disputas narrativas. A Corte, que deveria se manter acima das paixões políticas e das tendências digitais, parece agora preocupada em conquistar “likes” e seguidores, como se sua legitimidade dependesse de engajamento nas redes sociais.
Essa aproximação com criadores de conteúdo não é neutra. Ela carrega o risco de instrumentalizar o Judiciário como ferramenta de propaganda institucional, comprometendo sua independência e alimentando a percepção de que decisões judiciais podem ser influenciadas por pressões externas — inclusive digitais.
A imagem se constrói com ações, não com influenciadores
Se o STF deseja recuperar a confiança da população, o caminho não passa por eventos com influenciadores, mas por transparência, coerência nas decisões, respeito à Constituição e prestação de contas à sociedade. A imagem de uma instituição não se limpa com filtros de Instagram, mas com condutas que inspirem respeito e credibilidade.