Como o PT na Bahia vendeu o Credcesta e o negócio favoreceu o Banco Master

Credcesta: como o negócio de “dívida infinita” do Master sobreviveu a duas  liquidações de bancos - Estadão

O Banco Master foi, segundo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, o instrumento do que se configura como a maior fraude financeira da história do país. A instituição, liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025, teve parte relevante de sua expansão impulsionada pelo Credcesta — programa de crédito consignado originalmente criado para funcionários públicos da Bahia comprarem alimentos básicos. O produto não teria se estruturado e ganhado alcance nacional sem o empresário baiano Augusto Lima, o Guga, nem sem uma série de medidas adotadas por políticos do PT baiano.

A 9ª fase da Operação Compliance Zero, realizada pela Polícia Federal em 18 de junho de 2026, trouxe à tona os bastidores da engrenagem que conectou o PT da Bahia ao bilionário mercado de cartões consignados e à ascensão meteórica do banco de Daniel Vorcaro. Autorizada por Mendonça, a ação apurou crimes de corrupção passiva, ativa e lavagem de dinheiro, e colocou sob suspeita o senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo Lula no Senado, e seu enteado, Eduardo Sodré Martins.

A venda do Credcesta

A história começou em 2014, no fim da gestão do então governador Jaques Wagner, quando o governo baiano tentava se livrar da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), estatal responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo, que acumulava prejuízos anuais na casa dos R$ 80 milhões. Wagner sancionou, no fim daquele ano, um projeto que autorizava a privatização da companhia.

A 1ª tentativa de venda, em janeiro de 2016, por um lance mínimo de R$ 81 milhões, não teve interessados. A 2ª chamada, em março de 2018, já sob o governo de Rui Costa, também fracassou. Para tornar o negócio atraente, a gestão de Rui Costa incluiu de última hora, no edital, a administração completa do então chamado Programa Credicesta — que incluía o cadastro dos funcionários públicos que compravam alimentos fiado nos 49 supermercados da Ebal — e reduziu o lance mínimo para R$ 15 milhões.

Na 3ª tentativa, em abril de 2018, a NGV Empreendimentos e Participações arrematou o pacote completo por esse valor simbólico, R$ 66 milhões a menos do que a oferta inicial. O negócio deu à empresa vencedora vantagens expressivas: exclusividade de 15 anos para operar o cartão consignado do funcionalismo estadual baiano, margem exclusiva de até 30% do salário líquido dos servidores, risco quase zero de inadimplência (já que os descontos eram automáticos em folha) e isenção de qualquer passivo herdado da Ebal.

Augusto Lima e a chegada do Banco Master

Por trás da NGV, comandada oficialmente pelo investidor espanhol Ignacio Morales, atuava nos bastidores o empresário baiano Augusto Lima, que negociava diretamente com Jaques Wagner — como o próprio senador admitiu em entrevista ao programa Giro Baiana, da BNewsTV, em janeiro de 2026. Wagner e Guga tinham relação próxima: o ex-governador frequentava festas promovidas pelo empresário e chegou a ser citado pela PF em uma possível visita a uma ilha ligada ao grupo.

Após a privatização, em junho de 2018, a NGV transferiu os direitos de exploração do Credcesta para a PKL One Participações, comandada por pessoas ligadas a Guga Lima. No segundo semestre de 2018, o empresário procurou Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Máxima — que viria a se tornar o Banco Master —, depois de ter sido recusado pelo banco BMG. O Máxima comprou 50% da operação ainda naquele ano.

O salto decisivo veio 16 dias após a privatização: em 27 de abril de 2018, o governo Rui Costa editou dois decretos que transformaram o Credcesta de simples cartão de compras em plataforma de empréstimos consignados com saque em dinheiro, mantendo a margem exclusiva de 30% do salário líquido dos servidores.

Juros três vezes maiores que a média do mercado

O Credcesta privatizado passou a cobrar juros de cerca de 5% ao mês para saques em dinheiro — mais do triplo da taxa média do crédito consignado para o setor público, que variava entre 1,37% e 1,59% ao mês segundo o Banco Central. Bancos como Bradesco (1,34%), Caixa (1,35%) e Itaú (1,72%) praticavam taxas muito inferiores.

Com o apoio financeiro do Master, o produto deixou de ser regional e passou a operar em 24 Estados. A receita veio principalmente da securitização e revenda das carteiras de crédito: segundo dados da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado, o banco obteve R$ 1,6 bilhão em 2024 apenas com a revenda de carteiras do Credcesta, além de R$ 709 milhões em juros das operações originais. O número de clientes com crédito ativo saltou de 33.685 no fim de 2018 para 5,8 milhões em 2024.

Decreto de 2022 impediu portabilidade

Em janeiro de 2022, já com o Credcesta nas mãos do Master, Rui Costa assinou outro decreto que proibiu os servidores de transferir suas dívidas do cartão para instituições financeiras com juros menores — impedindo, na prática, a portabilidade para bancos que cobravam até três vezes menos.

“Endividamento perpétuo” e ações judiciais

A Associação dos Funcionários Públicos do Estado da Bahia (AFPEB) levou o caso à Justiça diversas vezes, alegando que servidores eram induzidos a contratar o que acreditavam ser um consignado simples, mas ficavam presos a um sistema de cobrança rotativa com juros permanentes. Contracheques anexados às ações mostram funcionários com até 95% do salário comprometido com descontos. O Tribunal de Justiça da Bahia acumula mais de 10 mil processos de servidores contra o produto.

Investigação aponta repasses à família de Wagner

A PF identificou uma transferência de R$ 3,5 milhões feita pela PKL One à BN Financeira, empresa descrita como vinculada ao núcleo familiar de Jaques Wagner — cuja nora, Bonnie Toaldo Bonilha, aparece na estrutura societária. Planilhas apreendidas também registrariam pagamentos superiores a R$ 2,34 milhões a uma pessoa identificada como “Dudu”, apelido atribuído a Eduardo Sodré Martins, enteado do senador.

Wagner negou recebimento de propina, mas admitiu ter pedido a Augusto Lima que comprasse um apartamento de luxo de R$ 2,5 milhões em Salvador para posterior recompra. A PF apreendeu em endereços ligados ao senador ao menos US$ 55.175 e 33.500 euros. Um dia após a operação, Wagner tentou vender um terreno avaliado em R$ 15,8 milhões, impedido por ordem de indisponibilidade de bens do ministro André Mendonça. Ele também tentava vender um apartamento de R$ 10 milhões no Corredor da Vitória, em Salvador.

Defesas negam irregularidades

Wagner enviou nota afirmando que “já forneceu todos os esclarecimentos necessários” e que os méritos do caso são discutidos judicialmente por sua defesa. Rui Costa não respondeu aos pedidos de posicionamento. O atual governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), disse que o contrato do Credcesta está sob análise da Procuradoria-Geral do Estado, mas defendeu a manutenção do programa. A defesa de Augusto Lima afirmou que o empresário sempre atuou “dentro dos limites da lei”. O PT não se manifestou.

Em depoimento à CPMI do INSS, em 26 de fevereiro, Wagner classificou como tentativa de associação indevida a ligação entre o escândalo do Master e a venda do Credcesta, atribuindo a origem do cartão a um governo de oposição ao PT e afirmando ter negociado apenas com um fundo espanhol, sem qualquer relação com o Banco Máxima ou o Master à época da venda.

Fim da sociedade e novo colapso

A parceria entre Augusto Lima e Vorcaro começou a se desfazer em maio de 2024, quando o empresário formalizou sua saída do Master e levou consigo o banco Voiter (depois renomeado Pleno), migrando as operações do Credcesta para essa nova estrutura. O Banco Central autorizou o desmembramento em julho de 2025 — mesmo já sabendo, segundo apurações posteriores, que havia fraudes no Master. O Pleno acabou liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em fevereiro de 2026, meses após o encerramento do próprio Master.

Caso integra a Operação Compliance Zero

A investigação sobre as fraudes do Banco Master já teve dez fases desde novembro de 2025, prendendo, entre outros, o próprio Vorcaro (preso novamente em março), o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, e alvejando também o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL). O colapso do Master resultou em liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central, com estimativa de rombo de R$ 47,3 bilhões.

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