Jaques Wagner e Rui Costa favoreceram negócio que enriqueceu Vorcaro, revela investigação

Quem apostar numa briga entre Wagner e Rui vai perder', diz membro do  governo - Liberdade de Imprensa

A arquitetura da maior fraude financeira da história do Brasil jamais teria sido possível se Daniel Vorcaro, do Banco Master, não tivesse se associado ao empresário baiano Augusto Lima, o Guga, no final de 2018. E Guga Lima não teria prosperado sem a ajuda direta dos políticos petistas mais famosos da Bahia, o senador Jaques Wagner e o ex-governador Rui Costa. A reportagem detalha como as conexões criadas entre o comando do PT baiano e Guga Lima foram a gênese do que viria a ser o Banco Master com Vorcaro, e mostra o nexo causal que resultou na investigação da Polícia Federal sobre possível tráfico de influência imputado a Wagner — algo que o senador nega — e na atuação decisiva de Rui Costa, quando governador, em favor do Master.

O relatório da PF sobre Wagner teve o sigilo retirado há alguns dias pelo ministro André Mendonça, do STF. O documento de 98 páginas, porém, passa apenas de raspão pela origem do caso: o cartão Credcesta, produto financeiro estatal vendido pelo PT da Bahia e turbinado pela administração petista para dar lucro à iniciativa privada.

Origem: o cartão de alimentos que virou máquina de crédito

O Credcesta nasceu nos anos 1980, criado por Antônio Carlos Magalhães, como sistema de venda de alimentos fiado a funcionários públicos da Bahia por meio da rede estatal Cesta do Povo, administrada pela Ebal (Empresa Baiana de Alimentos). Ao longo dos anos, a Ebal se tornou uma catástrofe financeira, acumulando prejuízos anuais de até R$ 80 milhões. Houve duas tentativas frustradas de venda da estatal — em 2016 e em março de 2018 — sob os governos de Jaques Wagner e depois Rui Costa (PT).

Na terceira tentativa, em abril de 2018, a gestão de Rui Costa incluiu de última hora, no edital de privatização, a administração completa do Credcesta e reduziu o lance mínimo de R$ 81 milhões para R$ 15 milhões. A empresa NGV Empreendimentos arrematou o pacote por esse valor simbólico. Pouco depois, o negócio foi repassado à PKL One Participações, controlada por Augusto Lima — o verdadeiro comprador definitivo, que já havia articulado tudo previamente com Wagner e Rui Costa.

Decretos que turbinaram o negócio 16 dias após a privatização

Apenas 16 dias após a venda, em 27 de abril de 2018, o governo Rui Costa editou dois decretos — o de nº 18.353 e o de nº 18.354 — que transformaram o Credcesta de simples cartão de compra de alimentos em uma plataforma de empréstimos consignados de alto rendimento. As medidas permitiram ao operador oferecer saques em dinheiro e garantiram uma margem exclusiva de até 30% da remuneração líquida dos 280 mil funcionários públicos baianos, separada de outros descontos já existentes em folha.

Com essas vantagens — exclusividade por 15 anos, margem própria, risco quase zero de inadimplência (já que os descontos eram automáticos em folha) e isenção de qualquer passivo herdado da Ebal —, o negócio de Guga Lima decolou. Ele buscou primeiro o banco BMG, que recusou a parceria, e depois se aproximou do Banco Máxima, de Daniel Vorcaro, que comprou 50% da operação ainda em 2018.

Juros três vezes maiores que a média do mercado

O Credcesta cobrava juros de cerca de 5% ao mês, enquanto a taxa média do consignado para o setor público, segundo o Banco Central, variava entre 1,37% e 1,59% ao mês no mesmo período — ou seja, o triplo do praticado por bancos como Bradesco, Caixa e Itaú. Com a receita gerada pelos juros somada à securitização e revenda das carteiras de crédito a terceiros, o banco de Vorcaro obteve R$ 1,6 bilhão em 2024 apenas com a revenda de carteiras do Credcesta, além de R$ 709 milhões em juros das operações originais. O número de clientes com crédito ativo saltou de 33.685 no fim de 2018 para 5,8 milhões em 2024, e o produto passou a operar em 24 Estados e 176 municípios.

Decreto de 2022 prendeu servidores a juros altos

Em janeiro de 2022, já com o Credcesta nas mãos do Master, Rui Costa assinou outro decreto (nº 21.041) que proibiu os funcionários públicos baianos de transferir suas dívidas do cartão para instituições que cobrassem juros menores — impedindo, na prática, a portabilidade para bancos com taxas até três vezes mais baratas.

Ações judiciais e denúncia de “endividamento perpétuo”

A Associação dos Funcionários Públicos do Estado da Bahia (AFPEB) levou o caso à Justiça diversas vezes, alegando que servidores eram induzidos a acreditar que contratavam consignados simples, mas ficavam presos a um sistema de cobrança rotativa com juros e encargos permanentes — um “endividamento perpétuo”. Contracheques anexados a uma das ações mostram funcionários com até 95% do salário comprometido com descontos, alguns ficando com pouco mais de R$ 1.600 líquidos de salários superiores a R$ 7.000.

Investigação aponta repasses a estrutura ligada a Wagner

A Polícia Federal, na 9ª fase da Operação Compliance Zero, identificou uma transferência de R$ 3,5 milhões feita pela PKL One (ligada a Augusto Lima) à BN Financeira, empresa descrita como vinculada ao núcleo familiar de Jaques Wagner — cuja nora, Bonnie Toaldo Bonilha, aparece na estrutura societária. Planilhas apreendidas também registrariam pagamentos superiores a R$ 2,34 milhões a uma pessoa identificada como “Dudu”, apelido atribuído a Eduardo Sodré Martins, enteado de Wagner.

Wagner negou recebimento de propina, mas admitiu ter pedido a Augusto Lima que comprasse um apartamento de luxo de R$ 2,5 milhões em Salvador para posterior recompra. A PF apreendeu em endereços ligados ao senador ao menos US$ 55.175 e 33.500 euros. Um dia após a operação, Wagner tentou vender um terreno avaliado em R$ 15,8 milhões, transação impedida por ordem de indisponibilidade de bens do ministro André Mendonça. Ele também tentava vender um apartamento de R$ 10 milhões no Corredor da Vitória, em Salvador.

Defesas negam irregularidades

Procurado, Wagner enviou nota afirmando que “já forneceu todos os esclarecimentos necessários” e que os méritos do caso são discutidos judicialmente por sua defesa. Rui Costa não respondeu aos pedidos de posicionamento. O atual governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), disse que o contrato do Credcesta está sob análise da Procuradoria-Geral do Estado, mas defendeu a manutenção do programa, afirmando não haver “falhas do Estado” já que a operação é privada desde 2018. A defesa de Augusto Lima afirmou que o empresário sempre atuou “dentro dos limites da lei”. O PT não se manifestou.

Wagner nega ligação com o caso

Em depoimento à CPMI do INSS, em 26 de fevereiro, Wagner classificou como tentativa de associação indevida a ligação entre o escândalo do Master e a venda do Credcesta, atribuindo a origem do cartão a um governo de oposição ao PT (o de Antônio Carlos Magalhães) e afirmando que negociou apenas com um fundo espanhol, sem qualquer relação com o Banco Máxima ou o Banco Master à época da venda.

Caso integra a Operação Compliance Zero

A investigação sobre as fraudes do Banco Master é tocada pela Operação Compliance Zero, que já teve dez fases desde novembro de 2025, prendendo, entre outros, o próprio Vorcaro (preso novamente em março), o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e alvejando também o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL). O colapso do Banco Master resultou em liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central.

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