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O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) protocolou nesta quarta-feira (2 de julho) uma manifestação formal no Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, pedindo a suspensão por 180 dias da proposta de tarifas de 25% sobre exportações brasileiras e oferecendo, em contrapartida, um conjunto de vantagens comerciais ao governo americano. O documento foi entregue às vésperas da audiência pública marcada para 6 de julho — evento em que Flávio se inscreveu para participar pessoalmente, em Washington —, após a qual o governo Trump decidirá até 15 de julho se aplica ou não as sobretaxas.
O argumento central: as tarifas ajudam Lula
O mesmo documento defende que a aplicação de uma nova tarifa de 25% com base nas investigações do USTR é um erro político que vai ajudar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, provável adversário de Flávio nas eleições deste ano. O raciocínio é direto: ao encarecer os produtos brasileiros e apertar a economia do país, as tarifas dariam ao governo Lula a narrativa de que o Brasil é vítima de uma agressão comercial americana, desviando a atenção pública dos escândalos do INSS, do Banco Master e das investigações que atingem o entorno presidencial — e possivelmente unindo o eleitorado brasileiro em torno de um sentimento antiamericano que beneficiaria o PT na eleição de outubro.
A oferta: etanol, cartões de crédito e abertura de mercado
Em troca, o parlamentar oferece vantagens comerciais aos norte-americanos, como a eliminação de tarifas para o etanol e a redução da carga tributária de empresas de cartão de crédito.
A oferta sobre o etanol é especialmente relevante porque o combustível americano — produzido a partir do milho — está entre os seis itens citados na investigação do USTR como alvos de práticas brasileiras consideradas injustas. O Brasil mantém tarifas protecionistas sobre o etanol importado dos EUA para proteger seu próprio mercado, dominado pelo etanol de cana-de-açúcar. Ao oferecer a eliminação dessas tarifas, Flávio está cedendo num dos principais pontos de atrito comercial entre os dois países. A redução da carga tributária sobre Visa e Mastercard, por sua vez, responde a outro ponto da investigação americana: a alegação de que o Pix — sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central — cria concorrência desleal para as operadoras americanas de cartão.
A defesa do Pix e o contra-argumento ao FedNow
No dossiê enviado ao USTR pelo gabinete do senador, Flávio defende o Pix como um dos marcos da gestão Bolsonaro e contesta as alegações de conflito de interesses feitas pela gestão Trump, apontando que o Fed, banco central americano, também opera uma ferramenta de pagamento chamada FedNow.
O argumento é tecnicamente sólido e politicamente estratégico: se os EUA alegam que o Pix é uma forma de o governo brasileiro criar concorrência desleal para empresas privadas americanas de pagamento, Flávio responde que o próprio banco central americano opera um sistema de pagamentos instantâneos — o FedNow — que compete com as mesmas operadoras privadas. A posição de Flávio é, portanto, a de que o Pix deve ser preservado — por ser um legado do governo Bolsonaro —, mas que o Brasil pode fazer concessões em outros pontos da investigação para chegar a um acordo.
A proposta sobre o Mercosul: “libertar” o Brasil das amarras do bloco
O senador propõe que o Brasil “se liberte das amarras” do Mercosul — o bloco de comércio restringe negociações bilaterais — como fez o presidente argentino, Javier Milei.
Esta é a proposta mais estrutural e controversa do documento. O Mercosul — bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e outros associados — exige que seus membros negociem acordos comerciais em conjunto, como um bloco, e não de forma bilateral. Isso significa que o Brasil não pode fechar um acordo de livre-comércio bilateral com os EUA sem o aval dos demais membros. Ao propor que o Brasil “se liberte” dessa restrição, Flávio está sugerindo na prática uma ruptura com o modelo de integração regional que orienta a política comercial brasileira há décadas — ou ao menos uma flexibilização profunda das regras do bloco, nos moldes do que Milei fez na Argentina ao negociar acordos de forma mais autônoma.
A resposta de Rubio: “Brasil onera os EUA” mas abertura ao futuro governo
O secretário de Estado Marco Rubio enviou uma carta ao pré-candidato, na qual afirma que determinadas políticas e práticas do Brasil “oneram ou restringem” o comércio norte-americano, mas sinaliza abertura para trabalhar “de forma cooperativa com os líderes escolhidos pelo povo brasileiro”.
Ao abordar o cenário político brasileiro, Rubio afirma que os Estados Unidos acompanham o “otimismo” de Flávio Bolsonaro em relação às eleições de outubro e diz que o país está disposto a trabalhar com os futuros governantes escolhidos pelos eleitores brasileiros: “Os Estados Unidos estão prontos para trabalhar de forma cooperativa com os líderes escolhidos pelo povo brasileiro para buscar uma estrutura ampla, justa e mutuamente benéfica para o comércio e os investimentos.”
O que está em jogo na audiência de 6 de julho
Flávio se inscreveu para participar da audiência pública que será promovida pelo governo dos Estados Unidos, no dia 6 de julho de 2026, para defender o Brasil da proposta de aplicação do tarifaço. O próprio secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou em carta que a oportunidade, conduzida pelo Representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, é o canal institucional legítimo para discutir o tema.
A audiência do dia 6 de julho deve reunir representantes de empresas, entidades empresariais e autoridades interessadas em apresentar argumentos favoráveis ou contrários à medida antes da decisão final do governo americano.
A cena que se formará em Washington na segunda-feira (6) é sem precedentes na história política brasileira: um pré-candidato à Presidência da República participará pessoalmente de uma audiência pública do governo americano para debater a política comercial do país que pretende governar — enquanto o governo que atualmente representa esse mesmo país se recusou a usar esse mesmo canal para defender os interesses brasileiros. É a materialização mais concreta até agora da estratégia de Flávio Bolsonaro de usar a relação privilegiada com o governo Trump como ativo de campanha — com a decisão final sobre as tarifas, prevista para 15 de julho, funcionando como um prazo eleitoral antecipado que pode moldar o debate econômico nos meses que faltam até outubro de 2026.