
Entre janeiro de 2023 e 15 de junho de 2026, o Grupo Globo recebeu quase R$ 270 milhões do governo Lula via Secretaria de Comunicação (Secom). O montante representa pouco mais de 25% do total investido pelo Executivo em campanhas publicitárias do Planalto nesse período.
O que é a Secom e como funciona a publicidade do governo federal
A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República é o órgão responsável por planejar e contratar a publicidade institucional do governo federal — campanhas sobre programas sociais, saúde pública, eventos nacionais, arrecadação de impostos e outras iniciativas de comunicação governamental. A Secom distribui os recursos entre diferentes veículos de comunicação — TV aberta, rádio, jornais, revistas, plataformas digitais e streaming —, contratando espaços publicitários com base em critérios de audiência, alcance e penetração junto ao público-alvo de cada campanha. O valor total gasto pela Secom equivale ao orçamento de comunicação direta do Palácio do Planalto — sem incluir as despesas de publicidade de outros ministérios ou empresas estatais, que não são divulgadas integralmente desde 2017.
Os números detalhados e o crescimento ano a ano
No total, a Secom alocou R$ 954,5 milhões em publicidade desde o início do terceiro mandato do petista. Somente em 2026, até 15 de junho, foram R$ 178 milhões em mídia. Os gastos anuais ficaram assim distribuídos: R$ 175,9 milhões em 2023, R$ 234,9 milhões em 2024, R$ 365,7 milhões em 2025 e R$ 178 milhões em 2026, até a data mencionada.
O crescimento do gasto total com publicidade ao longo dos anos é notável: de R$ 175,9 milhões em 2023 para R$ 365,7 milhões em 2025 — um aumento de 108% em dois anos. O ritmo de 2026 — R$ 178 milhões em cinco meses e meio — sugere que o ano pode encerrar com um total próximo ou superior a R$ 380 milhões, o que representaria novo recorde. Esse crescimento ocorre num contexto em que o governo está proibido, a partir de julho, de fazer publicidade institucional que possa ser confundida com propaganda eleitoral — o que significa que o volume gasto nos primeiros meses do ano pode ser ainda mais relevante do ponto de vista político.
A Globo na liderança com vantagem expressiva
O Grupo Globo recebeu ao menos o dobro do que foi encaminhado a outros grupos de comunicação para campanhas do Planalto. O valor destinado ao conglomerado da família Marinho é 118% superior ao repassado à Record, que recebeu R$ 122 milhões e ocupa o segundo lugar entre os maiores beneficiários. Na sequência, a Meta, dona de Facebook, Instagram e WhatsApp, aparece com R$ 86 milhões.
A diferença entre a Globo e os demais veículos é estrutural: o grupo recebeu mais do que Record e Meta juntas — R$ 267 milhões contra um total de R$ 208 milhões dos dois grupos combinados. Isso reflete tanto a audiência superior da Globo quanto o peso histórico da TV aberta na distribuição da publicidade governamental brasileira, que há décadas concentra suas maiores fatias nas emissoras de maior penetração nacional.
O UOL e o peso das plataformas digitais
Entre os veículos mapeados, há desde emissoras de TV até jornais, revistas e portais. O UOL, que pertence ao Grupo Folha, aparece na sexta colocação, com R$ 7,3 milhões. Os dados mostram que as emissoras de televisão dominam as primeiras posições no volume de recursos destinados.
A posição do UOL na sexta colocação com apenas R$ 7,3 milhões — enquanto a Meta aparece em terceiro com R$ 86 milhões — revela uma mudança no padrão de distribuição da publicidade governamental: a fatia digital está migrando cada vez mais para as grandes plataformas americanas, como Facebook, Instagram e YouTube, em detrimento dos portais e jornais digitais brasileiros tradicionais.
A comparação histórica e o que ficou fora do levantamento
Para efeito de comparação, de 2000 a 2016, a divulgação completa dos gastos indicava que o Grupo Globo recebeu R$ 10,2 bilhões em publicidade federal, sem atualização pela inflação.
O levantamento considera apenas os contratos firmados diretamente pela Secom do palácio. Ele não inclui despesas de empresas estatais, sociedades de economia mista ou de outros ministérios, cujos valores não são divulgados integralmente desde 2017.
Essa ressalva é fundamental para interpretar os números com precisão. Os R$ 267 milhões recebidos pelo Grupo Globo são apenas os contratos diretos da Secom do Palácio do Planalto. Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES e dezenas de outros ministérios e estatais também contratam publicidade com veículos de comunicação — e esses valores não estão incluídos no levantamento. O total real de recursos públicos destinados ao Grupo Globo em publicidade governamental durante o terceiro mandato de Lula é, portanto, significativamente maior do que os R$ 267 milhões revelados pelo