O governo federal identificou até o momento dez alertas disparados a partir de um possível ataque cibernético que alcançou milhões de pessoas na madrugada deste sábado (20 de junho), de acordo com o secretário Nacional de Proteção e Defesa Civil, Wolnei Wolff. Moradores de diversos estados brasileiros receberam, durante a madrugada, um Alerta Extremo falso enviado pela plataforma Defesa Civil Alerta com a palavra “misantropia” — termo que significa “horror à humanidade ou aversão à natureza humana”.

O que é um Alerta Extremo e por que essa categoria é tão sensível
O tipo de envio foi classificado como “Alerta Extremo”, categoria reservada para situações de risco iminente à vida, como enchentes, deslizamentos e tempestades severas. Esse nível de alerta é o mais alto da escala usada pela Defesa Civil — ele é projetado para soar nos celulares de toda a população numa área específica, mesmo sem cadastro prévio, justamente porque se destina a situações em que minutos de antecedência podem salvar vidas. Por isso, o disparo de um alerta extremo falso não é apenas um incômodo: ele compromete a credibilidade de todo o sistema, criando o risco de que a população deixe de levar a sério futuros alertas genuínos — um fenômeno conhecido como “fadiga de alerta”, que pode custar vidas em emergências reais.
Os estados atingidos
O secretário citou Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Brasília e Acre entre os locais que receberam alertas falsos, mas disse não conseguir precisar todas as localidades que registraram o ataque. Em São Paulo, o alerta com a palavra “misantropia” tocou nos celulares de moradores durante a madrugada.
Como o sistema foi violado: a origem no Paraná
“A princípio, se eu não me engano, o primeiro alerta foi dado do Paraná, só que dentro do nosso sistema tem uma regra. Quem está no Paraná, cadastrado no Paraná, só consegue dar alerta para o estado do Paraná. Ele jamais conseguiria dar alerta para outros estados”, afirmou Wolff.
A explicação do secretário revela uma característica importante do sistema: ele é segmentado por estado, com cada usuário cadastrado tendo permissão para emitir alertas apenas dentro de sua própria jurisdição. O fato de o ataque ter conseguido atingir múltiplos estados — Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Brasília e Acre — sugere que os invasores não exploraram uma única falha pontual, mas conseguiram repetir o acesso em diferentes pontos do sistema, criando ou se apropriando de cadastros distintos a cada novo disparo.
Nove alertas via Cell Broadcast, um via SMS
“E o levantamento, a varredura que foi feita dá conta de que houve 9 alertas usando o Cell Broadcast e 1 alerta usando o SMS”, complementou o secretário.
O Cell Broadcast é uma tecnologia que permite o envio simultâneo de mensagens de emergência para todos os celulares conectados a determinadas antenas de telefonia numa área geográfica específica, independentemente de cadastro prévio do número — é a tecnologia padrão usada por sistemas de alerta de emergência em diversos países, incluindo o Brasil desde os últimos anos. O SMS, por sua vez, depende de números previamente cadastrados no sistema da Defesa Civil. A predominância do Cell Broadcast nos disparos fraudulentos — nove dos dez alertas — explica por que o ataque conseguiu atingir “milhões de brasileiros em vários estados”, segundo Wolff, já que essa tecnologia tem alcance muito mais amplo e instantâneo do que o SMS tradicional.
A operação dos invasores: múltiplos cadastros, mesma origem aparente
Segundo Wolff, “o que parece ter ocorrido é que a pessoa ou as pessoas entraram, se cadastraram lá em algum sistema e fizeram alerta a partir de Curitiba”. “Não sei onde essa pessoa estava e nem quem é essa pessoa. Depois, a gente bloqueou uma outra pessoa. A mesma pessoa, não sei onde estava, entrou num outro lugar, com outro cadastro e fez um outro, fez nove vezes usando o sistema Cellbroadcast e uma vez usando o SMS”, continuou.
O secretário afirmou que ainda não é possível dizer se uma pessoa só conseguiu dar dez alertas, porque, à medida que a área de tecnologia da informação tomou ciência dos ataques, passou a cancelar o cadastro do usuário. “É difícil responder se uma ou mais pessoas participaram desse ato criminoso aí na madrugada de hoje”, destacou.
A hipótese central: ataque hacker, não falha interna
“Eu não tenho como ainda, nessa altura, cravar como é que foi ou quem fez o acesso. Mas tudo indica que não é uma pessoa do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil, cadastrada pela Secretaria Nacional e que tem acesso, possibilidade de ter acesso regular a esse sistema”, afirmou Wolff, indicando que tudo leva a crer que foi um ataque hacker.
Essa distinção é relevante para a investigação: descartar que se trate de um problema interno — como um servidor ou colaborador legítimo do sistema agindo de má-fé — direciona as apurações para a hipótese de uma invasão externa, que explorou alguma vulnerabilidade técnica para obter acesso não autorizado, com ou sem o uso de senhas válidas.
As investigações em andamento
Ele disse ainda que as investigações da Polícia Federal, assim como a realizada por técnicos da diretoria de tecnologia da informação do ministério, vão ajudar a explicar como aconteceu o ataque e como alguém de fora da Defesa Civil conseguiu acessar o sistema, com ou sem senha.
“Temos que considerar o que aconteceu nesse ataque, né? Temos que avaliar e ter informações bastante seguras de como é que aconteceu esse ataque, como é que essas pessoas conseguiram furar a nossa segurança, ver se está atendido por esse desenvolvimento que está em andamento no Ministério e, no menor tempo possível, é uma questão de prioridade do governo federal, colocar essa nova versão que garanta mais segurança ao sistema”, disse Wolff.
A motivação ainda é um mistério
Wolff também disse não saber por que a pessoa usou a palavra “misantropia” e que não consegue estabelecer uma previsão para o retorno pleno de segurança do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil.
A escolha do termo — que significa aversão à humanidade — pode ser uma pista sobre a motivação do ataque (possivelmente um ato de provocação ou caos gratuito, sem objetivo financeiro ou político claro), mas, sem mais informações da investigação, qualquer interpretação permanece especulativa.
As medidas emergenciais já adotadas
“Quando ele estiver plenamente de segurança… e pelo menos nesses estados aí, a gente já foi capaz de fazer trocas das senhas, né? Para que tenha um mínimo de segurança que não vão ocorrer ataques novamente”, disse o secretário.
Um sistema crítico em momento de máxima relevância
O episódio expõe uma vulnerabilidade preocupante justamente no sistema que o Brasil mais tem investido nos últimos meses como ferramenta de proteção contra desastres climáticos — com destaque para Santa Catarina, que vinha utilizando intensamente o Defesa Civil Alerta e o Cell Broadcast como parte de sua estratégia de prevenção diante da chegada do El Niño, confirmado pela NOAA poucas semanas antes. Um sistema concebido para salvar vidas em emergências reais — enchentes, deslizamentos, tempestades severas — mostrou-se vulnerável a uma invasão capaz de disparar alarmes falsos para milhões de pessoas, levantando questões sobre a robustez da infraestrutura de cibersegurança que sustenta um dos mecanismos de proteção civil mais importantes do país, justamente na temporada em que ele é mais necessário.