União Europeia mantém veto à carne brasileira sem prazo para reabertura — regras sobre antimicrobianos exigem mudanças em toda a cadeia produtiva

União Europeia confirma veto à carne brasileira e suspende importações a  partir de setembro - Correio da Mata

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não recebeu qualquer sinalização sobre quando poderá retomar as exportações de carne bovina para a União Europeia. Segundo autoridades do bloco, a suspensão das compras permanecerá em vigor até que o Brasil demonstre, na prática, que atende integralmente às novas regras sanitárias adotadas pelos europeus para o controle do uso de antimicrobianos na produção animal. A restrição passa a valer em 3 de setembro e atinge não apenas a carne bovina, mas também produtos como aves, ovos, pescado e mel. A Comissão Europeia afirma que não é possível estabelecer um cronograma para a liberação dos embarques.

O que são antimicrobianos e por que eles estão no centro do conflito

Antimicrobianos são um grupo amplo de substâncias — que inclui antibióticos, antifúngicos e antivirais — utilizados tanto na medicina humana quanto na produção animal para prevenir e tratar infecções causadas por microrganismos. Na pecuária e na avicultura, eles são usados para tratar doenças dos animais, mas também historicamente foram utilizados de forma preventiva e até como promotores de crescimento — uma prática que aumenta o ganho de peso dos animais, mas que é alvo crescente de restrições em todo o mundo.

O problema central é a resistência antimicrobiana: o uso excessivo ou inadequado dessas substâncias nos animais favorece o surgimento de microrganismos resistentes aos medicamentos — bactérias que, ao entrar em contato com humanos pela cadeia alimentar, podem causar infecções que não respondem a tratamentos convencionais. A Organização Mundial da Saúde classifica a resistência antimicrobiana como uma das maiores ameaças globais à saúde pública nas próximas décadas.

Bruxelas argumenta que as medidas integram a estratégia continental de combate à resistência antimicrobiana, fenômeno associado ao uso excessivo de medicamentos e apontado por organismos internacionais como um dos principais desafios da saúde pública nas próximas décadas.

Por que a reabertura não tem prazo: a complexidade da cadeia

A ausência de um cronograma para a reabertura não é capricho burocrático — ela reflete a dificuldade técnica real de adaptar uma cadeia produtiva tão vasta e descentralizada quanto a agropecuária brasileira às exigências europeias.

Segundo a diretora da DG Sante, órgão responsável pela área sanitária da União Europeia, Eva Zamora Escribano, diversos fatores influenciam a avaliação e tornam inviável prever uma data para a reabertura do mercado europeu. A União Europeia sustenta que a suspensão continuará até que o Brasil apresente garantias de que os animais utilizados na produção dos itens exportados não receberam substâncias consideradas incompatíveis com a legislação do bloco. Na prática, isso significa que os controles não se limitam aos frigoríficos. Os europeus exigem rastreamento desde a origem dos animais, incluindo informações sobre medicamentos utilizados ao longo do ciclo produtivo.

O tempo necessário para adaptação varia conforme cada setor. No caso da pecuária bovina, por exemplo, os ciclos de produção costumam durar muitos meses. Essa situação pode prolongar o período necessário para comprovação da conformidade exigida pelas autoridades europeias.

Em termos práticos: um boi que receberá antimicrobianos hoje ainda demora meses para ser abatido — e o carregamento resultante não poderá ser exportado para a Europa, mesmo que o produtor tenha adotado todas as novas regras a partir de hoje. O bloco exige que a cadeia inteira esteja em conformidade, do pasto ao frigorífico, o que significa que o prazo para a reabertura está intrinsecamente ligado ao ciclo biológico dos animais e não apenas às mudanças regulatórias formais.

O que o Brasil está fazendo para se adequar

Antes da entrada em vigor das restrições, auditores europeus realizaram inspeções para avaliar os sistemas brasileiros de controle sanitário voltados à exportação de carne bovina. O trabalho incluiu reuniões técnicas e visitas para verificar procedimentos adotados pelo país. Em paralelo, o Ministério da Agricultura iniciou ações para adequar o setor às novas exigências.

Entre as ações do governo federal está a publicação de orientações específicas para frigoríficos habilitados a exportar para o mercado europeu e a realização de treinamentos destinados aos servidores responsáveis pela fiscalização. As novas diretrizes determinam controles mais rigorosos sobre rastreabilidade, armazenamento de informações e monitoramento da origem dos animais. Também estabelecem protocolos para bloqueio de lotes que não atendam aos critérios exigidos e regras para comunicação imediata de eventuais irregularidades.

O que o Brasil ignorou antes — e o que isso custou

O veto europeu não chegou sem aviso. Segundo declarações anteriores da própria Comissão Europeia, o Brasil recebeu alertas sobre as novas exigências sanitárias com antecedência e não adotou as medidas preventivas necessárias a tempo de evitar a suspensão. A UE afirmou que o Brasil ignorou os alertas sobre exportação de carne — um histórico de omissão regulatória que agravou a situação do agronegócio brasileiro no mercado europeu e que agora exige uma resposta mais estruturada para reverter o quadro.

O peso econômico do veto

A União Europeia é um dos mercados mais importantes e mais exigentes para o agronegócio brasileiro. A carne bovina brasileira — produzida em escala industrial pelas maiores proteínas do mundo, como JBS, Marfrig e Minerva — tem no bloco europeu um destino de alto valor agregado: os europeus pagam prêmios significativos por cortes de qualidade, e a certificação de acesso ao mercado da UE é uma credencial de qualidade que abre portas em outros mercados exigentes ao redor do mundo. Perder o acesso ao bloco sem prazo para retorno representa não apenas uma queda de volume exportado e de receita cambial, mas também um sinal de desqualificação que pode ter efeitos reputacionais sobre a carne brasileira em outros mercados internacionais que monitoram as certificações europeias como referência de padrão sanitário.

O veto chega num momento especialmente delicado para as exportações brasileiras: o país já enfrenta a ameaça de tarifas de 25% propostas pelo governo Trump sobre produtos brasileiros nos Estados Unidos, o que coloca o agronegócio nacional sob pressão simultânea nos dois maiores mercados importadores do Ocidente — exigindo do governo e do setor privado uma resposta rápida e coordenada para evitar que a crise se aprofunde nos próximos meses.

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