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Outra reviravolta na apuração do segundo turno das eleições presidenciais do Peru colocou a candidata de direita, Keiko Fujimori, à frente do candidato de esquerda Roberto Sánchez Palomino por uma diferença de apenas 561 votos, em um universo de 27 milhões de eleitores aptos a votar. Com 9.032.632 votos, Fujimori retomou a liderança com 50,002% contra 49,998% de Sánchez, que somava 9.032.092 votos na manhã desta quinta-feira (11 de junho).

A sequência de viradas que ninguém previu
Os primeiros dados oficiais da apuração foram divulgados por volta das 22h de domingo (7) pelo órgão eleitoral peruano: Keiko Fujimori largou na frente, cinco pontos percentuais à frente de Roberto Sánchez. A diferença entre os dois foi diminuindo à medida que a apuração avançava. Por volta das 7h de segunda-feira (8), Keiko tinha menos de um ponto de vantagem sobre Sánchez. Às 13h07 de segunda, no horário local, o candidato da Juntos pelo Peru ultrapassou Keiko.
A partir daí, Sánchez manteve a liderança por três dias inteiros, com vantagem que chegou a 25 mil votos quando 97% das urnas haviam sido apuradas — e que parecia suficientemente sólida para garantir sua vitória. Então, na madrugada de quarta para quinta-feira, com o avanço da contagem dos votos do exterior, a direção do resultado se inverteu novamente.
O fator decisivo: a diáspora peruana votou em massa por Keiko
A retomada da liderança por Keiko Fujimori foi impulsionada principalmente pelos votos dos peruanos residentes no exterior. Nesse segmento do eleitorado, a candidata obteve 63,42% dos votos, enquanto Roberto Sánchez recebeu 36,57%. O avanço da contagem dessas urnas reduziu gradualmente a vantagem que o candidato de esquerda havia construído nos primeiros dias de apuração.
A contagem dos votos do exterior, que ajudaram Fujimori a superar Sánchez, foi finalizada. No estrangeiro, Fujimori ficou com 63,4% contra 36,5% do adversário.
O domínio de Keiko entre os peruanos no exterior — especialmente nos Estados Unidos, no Japão e na Europa — reflete o perfil socioeconômico da diáspora: emigrantes com maior renda e escolaridade, que se identificam mais com o projeto econômico liberal de Fujimori do que com a plataforma social-democrata de Sánchez, ligado ao ex-presidente Pedro Castillo.
Por que o resultado definitivo ainda demora: as atas em observação
Apesar da apuração avançada, estima-se que o resultado definitivo só seja divulgado em julho. Isso porque existem 1,4 mil atas eleitorais em observação. Essas urnas foram, por algum motivo, questionadas e devem passar por uma recontagem.
As atas “em observação” são documentos eleitorais que apresentaram alguma inconsistência formal durante a votação — rasuras, discrepâncias entre o número de votantes registrados e o de votos contabilizados, ou outras irregularidades que exigem verificação adicional com a presença de observadores de partidos e fiscais. Com mais de 1.400 atas nessa situação e a diferença atual abaixo de 600 votos, o resultado final depende inteiramente do que for encontrado nessa recontagem. Matematicamente, a distribuição dos votos nessas atas pode tanto ampliar a vantagem de Keiko quanto reverter o resultado em favor de Sánchez.
Um marco histórico além da eleição presidencial
Além da corrida presidencial acirrada, a eleição de 2026 marca uma mudança histórica no sistema político peruano. Pela primeira vez em mais de três décadas, o país volta a contar com um Congresso bicameral, formado por Câmara dos Deputados e Senado. O Senado havia sido extinto após as reformas constitucionais promovidas durante o governo de Alberto Fujimori nos anos 1990. A expectativa é que a retomada da estrutura ajude a reduzir os conflitos institucionais que marcaram a política peruana nos últimos anos.
A ironia histórica é notável: o Senado extinto pelo pai de Keiko nos anos 1990 — parte das reformas autoritárias que levaram à condenação de Alberto Fujimori por violações de direitos humanos — é restaurado exatamente no ano em que a filha pode se tornar presidente do país.
O contexto: quem é Keiko e o que está em jogo
Filha de Alberto Fujimori,, Keiko perdeu nas últimas três eleições no segundo turno, em 2011, 2016 e 2021. Do outro lado, está Roberto Sánchez, aliado do ex-presidente Pedro Castillo, destituído, preso e condenado por tentativa de golpe de Estado ao tentar dissolver o Parlamento.