“Supersafra”: pesca de tainha por arrasto de praia é encerrada em apenas 38 dias após atingir 90% da cota em Santa Catarina

Safra histórica supera duas mil toneladas em SC – Rádio Mirador

A safra da tainha por arrasto de praia, tradicional em Santa Catarina, chegou ao fim neste domingo (7 de junho). O governo federal anunciou que os pescadores já capturaram 90% da cota prevista para 2026, que era de 1.332 toneladas. Quem trabalha nesta modalidade tem 24 horas a partir de agora para descarregar as embarcações, conforme estabelecido em portaria.

O que é o arrasto de praia e como funciona a safra

O arrasto de praia é uma das modalidades mais tradicionais de pesca da tainha no litoral catarinense. Nela, pescadores lançam redes à beira-mar e as arrastam em direção à praia para capturar os cardumes que passam próximos à costa durante a migração da espécie. É uma prática com raízes profundas na cultura açoriana que colonizou boa parte do litoral de Santa Catarina, e que a cada ano reúne pescadores artesanais e suas famílias nas praias, especialmente na Grande Florianópolis, no Litoral Norte e no Litoral Sul do estado.

A tainha migra anualmente ao longo do litoral sul-brasileiro entre maio e julho, período em que passa por Santa Catarina em cardumes densos e em boa condição de captura. O governo federal regulamenta a safra por meio de cotas — limites máximos de captura por modalidade — para garantir a sustentabilidade do estoque pesqueiro.

A pesca da tainha por arrasto de praia começou no dia 1º de maio. Normalmente, a espécie marca presença no litoral catarinense até o fim de julho. Por lei, a captura pode seguir até 31 de dezembro ou até quando alcançar os 90% da cota, o que, desta vez, ocorreu em apenas 38 dias. Neste domingo, pescadores fizeram uma grande captura na praia de Quatro Ilhas, em Bombinhas.

Por que a safra foi tão curta: os ciclones extratropicais como possível explicação

O encerramento da cota em menos de 40 dias é excepcionalmente rápido — e levanta a questão sobre o que fez a tainha aparecer em tamanha abundância este ano. Segundo o doutor em Aquicultura e engenheiro do Laboratório de Piscicultura Marinha da Universidade Federal de Santa Catarina, Caio Magnotti, a “supersafra” de tainha deste ano pode estar relacionada aos ciclones extratropicais formados na Argentina. O fenômeno pode ter favorecido a movimentação do peixe em direção ao litoral do estado.

A hipótese é coerente com o que se sabe sobre o comportamento da tainha: o peixe é sensível a variações de temperatura e correntes oceânicas. Ciclones extratropicais geram ventos e correntes que podem empurrar cardumes em direção à costa, concentrando-os em áreas próximas à praia onde o arrasto se torna especialmente produtivo. Santa Catarina enfrentou uma sequência intensa de ciclones extratropicais desde o final de maio — os mesmos sistemas que provocaram ressacas, granizo e alertas climáticos no estado. A “supersafra” de tainha pode ser, ironicamente, um subproduto inesperado e benéfico de uma temporada climática que, em outros aspectos, tem sido bastante turbulenta.

As outras modalidades de pesca que continuam liberadas

O encerramento da safra por arrasto de praia não significa o fim de toda a pesca de tainha na região. Outras modalidades seguem liberadas: o emalhe anilhado, com cota de 1.094 toneladas restrita ao litoral de Santa Catarina, com limite de 15 toneladas por embarcação e tolerância extra de até 20%; o emalhe costeiro de superfície, com 2.070 toneladas disponíveis, permitido no litoral e em águas mais afastadas das regiões Sudeste e Sul; o cerco e traineira, com 720 toneladas distribuídas por embarcação, operando no litoral e em águas afastadas do Sudeste e Sul do Brasil; e a captura no estuário da Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, com cota de 2.760 toneladas e regras específicas para aquela área.

O que é uma cota pesqueira e por que ela existe

A cota pesqueira é o limite máximo de captura de uma espécie definido pelo governo com base em estudos científicos sobre a saúde do estoque populacional do peixe. Seu objetivo é evitar a sobrepesca — a captura em volume superior à capacidade de reprodução da espécie —, que pode levar ao colapso do estoque e ao fim da pesca comercial daquele recurso. O sistema de cotas por modalidade garante que diferentes grupos de pescadores — artesanais, industriais, estuarinos — tenham acesso regulamentado ao recurso, sem que nenhum grupo esgote a oferta disponível para os demais. Quando 90% da cota de uma modalidade é atingida, a lei determina o encerramento da pesca naquela modalidade — exatamente o que ocorreu neste domingo com o arrasto de praia.

A “supersafra” de 2026 é, portanto, uma boa notícia para os pescadores que conseguiram capturar o máximo permitido em tempo recorde — e um dado importante para os cientistas que acompanham a saúde do estoque de tainha no litoral sul-brasileiro, que terão neste ano um evento atípico para incorporar aos seus modelos de monitoramento.

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