/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/8/l/vMQTVuQoGhROBPw3B8KQ/112842070-ri-rio-de-janeiro-rj-28-10-2025-mega-operacao-policial-nos-complexos-do-alemao-e-pen.jpg)
Pesquisa AtlasIntel divulgada quarta-feira (3 de junho) mostra que 47,6% dos entrevistados avaliaram como “péssimo” o desempenho do governo federal na área de segurança pública e no combate ao crime organizado. Os entrevistados responderam à seguinte pergunta: “Como você avalia o desempenho do governo federal na área de segurança pública e combate ao crime organizado?” Os resultados foram: péssimo, 47,6%; bom, 18,7%; ótimo, 18,1%; regular, 8,7%; e ruim, 6,7%.
O que diz a metodologia
A pesquisa reuniu 1.273 pessoas com 16 anos ou mais, entre os dias 30 de maio e 3 de junho. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.
O contexto que moldou as respostas
O dado ganha contornos ainda mais relevantes quando se observa o período em que foi colhido. A coleta de dados coincidiu com o anúncio do Departamento de Estado dos Estados Unidos que classificou como facções criminosas Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras e também como Terroristas Globais Especialmente Designados.
A classificação americana foi precedida pela visita do senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro à Casa Branca, onde pediu pessoalmente ao presidente Trump que enquadrasse as facções nessa categoria — pedido atendido em menos de 48 horas. O governo Lula reagiu criticamente à medida, argumentando que ela representa risco à soberania nacional, enquanto a oposição celebrou como resultado direto de sua articulação com Washington. Esse debate intenso dominou a semana em que a pesquisa foi realizada, o que provavelmente contribuiu para colocar a segurança pública no topo da percepção de insatisfação do eleitorado.
Como os brasileiros enxergam as facções
Além da avaliação do governo, uma pesquisa investigou como os brasileiros percebem a atuação do PCC e do CV no país — e o resultado revela uma compreensão que vai muito além do tráfico de drogas.
Para 48,3% dos entrevistados, os grupos atuam mais na corrupção e infiltração política. Já 44,2% apontaram o tráfico de drogas e 39,8%, a lavagem de dinheiro.
O fato de a corrupção e infiltração política superar o tráfico de drogas como principal atividade percebida das facções é um dado de enorme significado político. Ele indica que a população brasileira não vê mais o PCC e o CV apenas como organizações criminosas externas ao narcotráfico — mas como estruturas que penetraram o sistema político e econômico do país, corrompendo agentes públicos, infiltrando partidos e movimentando recursos dentro do sistema financeiro formal. Essa percepção está alinhada com o que as investigações policiais revelaram nos últimos anos: os esquemas de lavagem de dinheiro via entidades de fachada, as conexões com o mundo político e o uso de empresas legítimas como escudo para as operações criminosas.
O que os brasileiros querem que o governo faça
Para a maioria dos entrevistados, 74,5%, o combate à atuação das facções no Brasil passa pelo sufocamento financeiro, com bloqueio de contas e rastreio de lavagem de dinheiro no sistema bancário. O governo, no entendimento da maioria, deveria priorizar essa medida, assim como o controle rígido das fronteiras, apontado por 29,1%.
A preferência esmagadora pelo sufocamento financeiro como principal ferramenta de combate ao crime organizado é, por si só, um dado revelador. Ele mostra que a população absorveu — ao menos intuitivamente — a lógica de que as grandes organizações criminosas modernas são, antes de tudo, estruturas financeiras. Atacar o dinheiro é atacar a estrutura. Não por acaso, também é exatamente o mecanismo central acionado pela classificação americana do PCC e do CV como organizações terroristas: o bloqueio de ativos no sistema financeiro americano e a autorização de transações com qualquer entidade que mantenha relações com as facções.