/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/Q/Z/54WATtRkCaxEYYpnYG2w/lula-petro.jpg)
Com o anúncio desta quinta-feira (28 de maio), a medida iniciada da gestão de Donald Trump equipara o PCC e o CV aos cartéis mexicanos e ao grupo venezuelano Trem de Aragua, alterando profundamente o cenário de cooperação internacional e repressão financeira na América Latina. Mas a lista de organizações da região enquadradas como terroristas pelos Estados Unidos é longa e revela uma estratégia crescente de uso do enquadramento jurídico do terrorismo para ampliar o alcance das ações americanas contra o crime organizado no hemisfério.
O que significa estar na lista e como ela funciona
O Departamento de Estado dos Estados Unidos mantém uma lista oficial de Organizações Terroristas Estrangeiras, usada para enquadrar grupos que, na avaliação do governo norte-americano, praticam ou planejam atos de terrorismo e representam ameaça à segurança nacional, com impacto direto em sanções financeiras, imigração e cooperação internacional. Uma vez designada, a organização passa a estar sujeita a uma série de efeitos jurídicos, como restrições financeiras e migratórias, além de medidas administrativas por parte de instituições públicas e privadas dos EUA. A lei também prevê mecanismos de revisão periódica das designações e de pedidos de revogação, caso as observações que motivaram a inclusão mudem de forma relevante.
A inclusão na lista autoriza o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac) do Tesouro americano a congelar de forma imediata quaisquer bens, contas bancárias ou patrimônios que as facções possuíssem em solo norte-americano. Além disso, empresas globais e instituições financeiras que operam com o sistema de liquidação em dólares ficam terminantemente proibidas de realizar qualquer transação com os grupos designados.
Trem de Aragua — Venezuela
O primeiro grande grupo latino-americano recebeu a designação sob o governo Trump foi o Trem de Aragua. Segundo o Departamento do Tesouro dos EUA, o Trem de Aragua começou como uma gangue prisional na Venezuela, com grande parte de suas atividades criminosas focadas no tráfico de pessoas e outros atos ilícitos que visam migrantes desesperados. Também conhecido como TdA, o grupo hoje tem presença muito além de seus territórios originais. Óscar Naranjo, ex-vice-presidente da Colômbia e chefe da Polícia Nacional Colombiana, disse que o Trem de Aragua é “uma organização criminosa mais disruptiva em operação atualmente na América Latina”. O grupo se tornou um dos temas centrais da campanha eleitoral americana de 2024, após episódios apontados à organização em cidades americanas como Aurora, no Colorado.
MS-13 — El Salvador
A MS-13, ou Mara Salvatrucha, é uma gangue de rua e organização criminosa salvadorenha-americana, notória por sua brutalidade. Diferentemente dos outros grupos da lista, o MS-13 é técnico originário dos EUA: um grupo de salvadores fundou a organização na década de 1980 em Los Angeles. Nos anos seguintes, o MS-13 cresceu à medida que mais salvadorenhos chegavam aos EUA fugindo da guerra civil no país. Quando as autoridades americanas começaram a deportar membros de volta para a região na década de 1990, isso provocou uma explosão na atividade de gangues em El Salvador e países vizinhos. A inclusão do MS-13 na lista é considerada curiosa por especialistas diante do fato de que o presidente Nayib Bukele praticamente desmantelou a organização em El Salvador nos últimos anos, prendendo quase 1% da população do país.
Cartel de Sinaloa — México
O Cartel de Sinaloa está intimamente associado ao seu antigo líder, Joaquín “El Chapo” Guzmán. Após sua extradição para os EUA em 2017 e publicada dois anos depois, seus filhos — os Chapitos — assumiram parcialmente o controle do grupo. De acordo com o Conselho de Relações Exteriores, a presença internacional do Cartel de Sinaloa não tem paralelo entre os grupos criminosos mexicanos, com um império diversificado que abrange extorsão, tráfico de armas, prostituição e roubo de petróleo, além do narcotráfico. Em 2023, o então procurador-geral dos EUA, Merrick Garland, alegou que o Cartel de Sinaloa operava uma “operação maior, mais violenta e mais prolífica de tráfico de fentanil do mundo”.
Cartel do Golfo — México
Conhecido pela sigla CDG, o Cartel del Golfo tem sua base em Matamoros, México, logo após a fronteira com Brownsville, Texas. O cartel surgiu durante a Lei Seca contrabandeando heroína e ísque para os Estados Unidos, mas foi somente nas décadas de 1990 e 2000 que ganhou destaque sob a liderança de Osiel Cárdenas Guillén. Cárdenas recrutou membros das Forças Especiais Mexicanas para se juntarem ao grupo como executores. A unidade acabou se separando e formando o Cartel Los Zetas em 2010.
Cartel de Jalisco Nova Geração – México
O Cartel Jalisco Nova Geração, ou CJNG, é uma das “organizações criminosas mais poderosas e implacáveis” do México, segundo a DEA. A organização foi liderada por Nemesio “El Mencho” Oseguera Cervantes, morto durante uma operação militar no país em fevereiro de 2026. O CJNG se tornou o cartel mais poderoso do México desde a prisão de El Chapo. Segundo a DEA, o grupo surgiu na década de 2010 a partir dos remanescentes do Cartel Milenio. O cartel é responsável por tentativas de assassinato contra autoridades do governo mexicano e homicídios contra grupos rivais do narcotráfico. Em maio de 2015, respondeu a uma operação de segurança com bloqueios simultâneos em vários municípios e abateu um helicóptero militar, matando três soldados.
Cárteles Unidos e Cartel del Noreste — México
Os Cárteles Unidos foram formados em 2019 como uma aliança entre o Cartel de Tepalcatepec, Los Viagras e outros grupos, com o objetivo de combater o CJNG e expulsá-lo de Michoacán. A organização também se dedica à extorsão de produtores de abacate — principal produto de exportação do México —, com um relatório recente constatando que 80% dos pomares de abacate estabelecidos em Michoacán foram ilegalmente.
Já o Cartel del Noreste opera principalmente no nordeste do México, ao longo da fronteira com os EUA. O cartel surgiu quando Los Zetas se fragmentou após perdas de lideranças de alta escalada. Em 2024, o Departamento de Justiça acusou o CDN e Los Zetas de “usar violência terrorista para controlar grandes áreas do norte do México, incluindo a fronteira entre o México e os Estados Unidos”.
La Nueva Família Michoacana – México
Segundo o Departamento do Tesouro dos EUA, La Nueva Familia Michoacana é liderada por José Alfredo e Johnny Hurtado Olascoaga, com presença em Michoacán, Guerrero e no Estado do México. O Departamento de Estado alega que a organização está envolvida no contrabando de migrantes para os EUA, além do tráfico de fentanil, cocaína e metanfetamina. O fundador do grupo, Nazario “El Chayo” Moreno, era conhecido por pregar versículos bíblicos e frases de autoajuda aos membros de sua organização.
O que emerge da lista
A sequência de designações revela uma estratégia coerente do governo Trump: ao classificar progressivamente mais organizações criminosas latino-americanas como terroristas, os EUA ampliam sua base jurídica para ações de inteligência, avaliações financeiras e pressão diplomática sobre os países da região. PCC e CV ambas agora num rol dominado por cartéis mexicanos — mas a diferença estrutural é significativa: enquanto os cartéis mexicanos operam com estruturas paramilitares e têm controle territorial extenso ao longo da fronteira americana, as facções brasileiras atuam principalmente dentro do território nacional e têm nos EUA ainda considerados incipientes. A inclusão do PCC e do CV na mesma lista que o Cartel de Sinaloa ou o CJNG representa, portanto, não apenas um enquadramento jurídico, mas também um posicionamento geopolítico que coloca o Brasil no centro das preocupações de segurança do governo americano — com todas as implicações diplomáticas que isso carrega.