Santa Catarina é o único estado do Brasil com antena própria para receber imagens de satélite diretamente do espaço e monitorar tempestades em tempo real

Radar meteorológico do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de  Tráfego Aéreo CINDACTA II da FAB Força Aérea Brasileira - Morro da Igreja -  Parque Nacional São Joaquim | Pulsar Imagens |

A tecnologia usada para prever temporais, chuvas intensas e até granizo em Santa Catarina começa a quase 36 mil quilômetros da Terra. O estado é o único do Brasil com uma Defesa Civil estadual equipada com antena própria para recepção direta de imagens de satélite, recurso que permite acompanhar em tempo real a formação de sistemas meteorológicos e emitir alertas mais rápidos à população. Instalada desde maio de 2018 na sede do Centro Integrado de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cigerd), em Florianópolis, a antena passou neste ano a operar com o sinal do satélite GOES-19, o mais moderno da série utilizada para monitoramento climático nas Américas.

O que é o satélite GOES-19 e como ele funciona

O GOES-19 é um satélite geoestacionário operado pela NOAA, a agência meteorológica e oceânica dos Estados Unidos. “Geoestacionário” significa que o satélite orbita na mesma velocidade em que a Terra gira — o que o mantém sempre sobre a mesma região do planeta, monitorando continuamente a mesma área. Ele fica a aproximadamente 35.800 quilômetros de altitude e é equipado com sensores capazes de captar imagens em múltiplos comprimentos de onda da luz, do espectro visível até o infravermelho. Com isso, é possível enxergar as nuvens não apenas como elas parecem visualmente, mas também medir sua temperatura, umidade, altitude e composição — informações que revelam se uma tempestade está se formando, crescendo ou prestes a produzir chuva intensa, granizo ou raios.

A estrutura permite que os meteorologistas da Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil recebam imagens diretamente do satélite, sem depender de internet ou de servidores intermediários. Isso representa uma vantagem crítica: em situações de crise climática, quando a internet pode falhar ou ficar sobrecarregada, Santa Catarina continua recebendo dados atualizados sem interrupção.

O que a antena consegue detectar

De acordo com o gerente de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil estadual, Frederico de Moraes Rudorff, o satélite consegue captar 16 diferentes faixas de luz — do espectro visível ao infravermelho. Na prática, isso permite identificar desde a temperatura e umidade das nuvens até fenômenos mais específicos, como neve no Planalto Catarinense e áreas de maior atividade elétrica. A combinação desses canais em composições coloridas (RGB) permite identificar visualmente frentes frias, correntes de jato, massas de ar úmidas e tempestades com potencial de granizo antes mesmo de o radar detectar a precipitação. É essa antecipação que faz a diferença entre um alerta precoce e uma resposta tardia.

Segundo a Defesa Civil, o monitoramento também ajuda a identificar os chamados “rios atmosféricos”, corredores de umidade que costumam intensificar eventos extremos de chuva, especialmente em períodos de El Niño.

A rede que trabalha junto com o satélite

As imagens captadas pelo satélite são integradas às informações de quatro radares meteorológicos espalhados pelo estado e de 172 estações hidrológicas e meteorológicas instaladas em diferentes regiões catarinenses. O primeiro radar foi instalado em Lontras, no Vale do Itajaí, em 2014. Depois vieram os equipamentos de Chapecó, em 2017, Araranguá, em 2018, e Joinville, em 2023. Além de acompanhar tempestades e o deslocamento de chuva, os radares trabalham em conjunto com as estações de superfície, que monitoram nível de rios, acumulado de precipitação, temperatura, pressão atmosférica, umidade do ar e velocidade do vento.

Os equipamentos enviam dados atualizados a cada 15 segundos e alimentam a Rede Integrada de Monitoramento da Defesa Civil, sistema usado para emissão de alertas por SMS e Cell Broadcast. As informações também ficam disponíveis para consulta pública e download por pesquisadores, gestores e pela população em geral.

Por que isso é especialmente importante agora

A revelação de que Santa Catarina possui essa infraestrutura inédita no país chega num momento de extrema relevância climática. O estado vive uma das semanas meteorológicas mais agitadas de 2026 — com ciclones extratropicais, alertas de ressaca no litoral, chuvas de granizo no Oeste e na Serra e a sombra crescente do El Niño, que promete intensificar os eventos extremos ao longo do ano. Ter uma antena capaz de captar imagens de satélite de forma autônoma, sem intermediários e em tempo real, coloca a Defesa Civil catarinense numa posição de vantagem significativa para alertar a população antes que os desastres aconteçam — e, como a história do estado demonstra em tragédias como a de 2008, em Blumenau e região, minutos de antecipação num alerta de emergência podem salvar vidas.

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