Copom reduz Selic para 14,50% ao ano e sinaliza “cautela e serenidade” diante da guerra no Oriente Médio

Copom reduz Selic para 14,50% e sinaliza 'cautela e serenidade' diante de  incerteza

Decisão foi unânime e marca o segundo corte consecutivo do atual ciclo de afrouxamento monetário; inflação acima da meta, mercado de trabalho aquecido e conflitos geopolíticos condicionam próximos passos do Banco Central


O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira, 29 de abril, reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, levando a Selic para 14,50% ao ano. A decisão foi unânime. Em comunicado, o Copom reafirmou que a condução da política monetária seguirá com “serenidade e cautela”, condicionando decisões futuras à evolução do conflito no Oriente Médio e seus efeitos sobre preços.

A decisão era amplamente esperada pelo mercado. Todos os economistas consultados pela Bloomberg, com exceção de um, projetavam um corte de 25 pontos-base.


O segundo corte consecutivo do ciclo

A redução marca o segundo corte consecutivo do ciclo de afrouxamento iniciado em março, quando o Copom reduziu a taxa de juros pela primeira vez desde 2024, após manter a Selic estável em 15% por cerca de nove meses.

Apesar do cenário de incerteza elevada, o Copom justificou a continuidade do ciclo de cortes pela avaliação de que a política monetária restritiva mantida por um longo período já está produzindo os efeitos esperados sobre a economia. Para o comitê, isso cria condições para ajustes graduais no ritmo e na extensão da flexibilização, sem abrir mão da convergência da inflação à meta.


As projeções de inflação ainda preocupam

O comitê destacou que as projeções de inflação se distanciaram ainda mais da meta no horizonte relevante — o quarto trimestre de 2027 —, para o qual o IPCA projetado no cenário de referência está em 3,5%. Para 2026, a projeção é de 4,6%. As expectativas de inflação apuradas pelo Focus para 2026 e 2027 permanecem acima da meta, em 4,9% e 4,0%, respectivamente.


O IPCA-15 e o choque externo

O Copom chegou a esta reunião com um quadro econômico ambíguo. O IPCA-15 de abril avançou 0,89% no mês — abaixo da estimativa mediana de 0,98% dos economistas consultados pela Bloomberg —, mas a leitura anual acelerou para 4,37%, bem acima da meta de 3% perseguida pelo Banco Central. Alimentos e bebidas foram o principal vetor de alta, com avanço de 1,46% na primeira quinzena do mês.

A escalada das tensões no Oriente Médio, com a guerra no Irã, tem pressionado os preços do petróleo e aumentado as incertezas sobre a trajetória da inflação global. Economistas consultados pelo BC na pesquisa Focus elevaram suas projeções de inflação para o Brasil, com estimativas apontando para leituras acima da meta de 3% até 2029.


O mercado de trabalho aquecido complica o cenário

No mercado de trabalho, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou a criação de 228.208 vagas formais em março, número muito superior à mediana das estimativas de 148.576 postos. O setor de serviços respondeu por mais de 152.000 novas vagas. A robustez do mercado de trabalho tem sido uma preocupação recorrente dos membros do Copom, já que sustenta renda e consumo em um ambiente de inflação ainda elevada.


O real valorizado ajuda a conter os preços

Ao mesmo tempo, o real acumulava valorização de cerca de 10% frente ao dólar no ano, o melhor desempenho entre as moedas de mercados emergentes no período — fator que ajuda a conter os custos de importação e atenua parte do choque externo sobre os preços de combustíveis.


O peso político da eleição

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem adotando uma série de medidas de estímulo às vésperas das eleições de outubro, o que adiciona complexidade ao trabalho do Banco Central. O governo reduziu impostos sobre combustíveis, ampliou subsídios e prepara um programa de redução do endividamento das famílias. Membros do Partido dos Trabalhadores têm pressionado publicamente por cortes mais agressivos nos juros.


O que diz o comunicado do Copom

No comunicado divulgado nesta quarta, o Copom afirmou: “O período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica, criando condições para que ajustes no ritmo e extensão dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta.”

O comitê sinalizou ainda que “no cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio.”


Os membros que votaram pela decisão

Votaram pela decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David e Paulo Picchetti.


Com a Selic em 14,50% ao ano, o Brasil segue com uma das maiores taxas de juros reais do mundo — e o Copom deixou claro que os próximos passos dependerão, mais do que nunca, do desenrolar de uma guerra no Oriente Médio que nenhum modelo econômico consegue prever com precisão. Entre a pressão política por cortes mais rápidos e a obrigação institucional de perseguir a meta de inflação, o Banco Central caminha numa corda bamba que só deverá se estabilizar com mais clareza sobre o cenário global nos próximos meses.

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