
Pesquisas mostram queda na aprovação do presidente entre as mulheres e encolhimento da vantagem sobre Flávio Bolsonaro; especialistas apontam que gestos simbólicos já não bastam — o eleitorado feminino quer resultados concretos em segurança, saúde e economia
Impulsionado pela alta rejeição a Jair Bolsonaro, o voto feminino foi decisivo para a eleição de Lula em 2022. Quatro anos depois, esse segmento ainda representa uma das principais bases de apoio ao presidente, mas vem se distanciando gradualmente.
Pesquisas recentes indicam recuo no apoio feminino ao presidente, movimento que já passa a ser tratado como ponto estratégico para a disputa eleitoral de 2026. Levantamento da Genial/Quaest mostra que a aprovação do governo entre as mulheres caiu de 48% em janeiro para 45% em abril, índice ainda superior à média nacional, mas em trajetória de queda.
Já o Datafolha mostra que, em simulação de segundo turno, a vantagem de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro entre as mulheres reduziu de treze pontos em março para apenas quatro pontos em abril.
O desempenho de Lula entre eleitoras piorou desde 2022. Conforme o PoderData, em levantamento de 21 a 23 de março, a desaprovação do governo entre as mulheres está em 58%, superando a desaprovação entre os homens, que é de 55%.
O peso estratégico do eleitorado feminino
Até o início de abril, o TSE registrava 156,2 milhões de eleitores, sendo 82,6 milhões de mulheres e 73,6 milhões de homens — diferença de nove milhões de votos, mais que o quádruplo da vantagem de Lula sobre Bolsonaro no segundo turno de 2022, de 2,1 milhões.
As eleições de 2026 caminham para ter um recorde de eleitoras. Dados do TSE mostram que as votantes habilitadas do sexo feminino são 52,8% do total.
O que as mulheres querem — e o que o governo entrega
No início do terceiro mandato, Lula recriou o Ministério das Mulheres, sob comando de Márcia Lopes, numa tentativa de demonstrar compromisso com a pauta feminina. No entanto, a pasta, o conjunto da Esplanada e a Presidência sofrem com falta de foco. A conquista do voto feminino depende cada vez menos de gestos simbólicos direcionados a setores progressistas e cada vez mais de ações que melhorem a qualidade de vida das mulheres e de suas famílias.
As prioridades desse segmento são segurança, saúde e educação. “O voto feminino tem relação direta com a realidade prática. A violência que atinge mulheres e seus filhos é um elemento central”, afirma Flávia Biroli, professora de Ciência Política da UnB.
“Embora o foco de Lula tenha sido na violência, e isso ajuda muito, tem um outro ponto de vulnerabilidade dele que é em relação à economia, porque se a economia não vai bem, ele também não vai bem entre as mulheres. A mulher é a primeira a sentir a inflação do dia a dia. É a mulher que vai ao supermercado, é a mulher que investe em materiais de escola para os filhos”, avalia a cientista política Rejaine Pessoa.
O desafio de Flávio Bolsonaro com as eleitoras
Flávio Bolsonaro enfrenta um desafio maior, que é o peso do sobrenome junto às eleitoras. Em seu governo, Bolsonaro nomeou apenas 2 mulheres entre 22 ministros. Uma pesquisa da AtlasIntel divulgada em fevereiro mostrou que 54% das mulheres têm medo ou preocupação com a eleição do senador, contra 38,4% que sentiram o mesmo em relação a Lula.
“O bolsonarismo enfrenta até hoje uma barreira estrutural muito grande entre as mulheres, pois é interpretado como hostil à dignidade feminina. E isso custa muito até hoje. A gente vê pesquisas que mostram uma rejeição muito grande do bolsonarismo pelas mulheres, e isso é um fator muito grave”, pontua a cientista política Rejaine Pessoa.
Com a eleição de outubro de 2026 se aproximando, a disputa pelo voto feminino promete ser o campo de batalha mais decisivo da corrida presidencial. Para Lula, o desafio é transformar medidas simbólicas em resultados percebidos no cotidiano das eleitoras. Para Flávio Bolsonaro, trata-se de desconstruir uma rejeição histórica das mulheres ao bolsonarismo — tarefa que, segundo especialistas, será muito mais difícil de superar em apenas alguns meses de campanha.