‘Taxa das blusinhas’ encarece produtos sem criar empregos, diz pesquisa

Taxa das blusinhas': quando começa a valer taxação da Shein?

Estudo aponta que a taxação de 20% sobre importações de até US$ 50 inflacionou o varejo nacional e beneficiou principalmente grandes corporações, sem retorno social para trabalhadores


A implementação da “taxa das blusinhas” resultou em aumento de preços ao consumidor no varejo nacional, sem contrapartidas claras em geração de emprego e renda, segundo estudo da Global Intelligence and Analytics, obtido com exclusividade pela Broadcast. O estudo foi encomendado pela Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) à consultoria fundada pelo professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Lucas Ferraz, ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério da Economia no governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022.


O que é a taxa das blusinhas

A “taxa das blusinhas” foi criada pelo Art. 32 da Lei 14.902 e entrou em vigor em 1º de agosto de 2024. O imposto de 20% sobre compras internacionais online de até US$ 50 surgiu sob o argumento de propiciar ao varejo nacional maior geração de renda e emprego.


Preços subiram, empregos não vieram

Os produtos do varejo nacional com maiores aumentos de preços em um ano da tarifa foram: cosméticos (17%), bijuterias (16%), papelaria (13%), calçados (9%) e vestuário (7,1%). Somente em brinquedos a elevação foi pouco perceptível. Esses valores majorados pressionaram a inflação de 5,23% divulgada pelo IBGE no período.

No entanto, segundo o estudo, os efeitos observados indicam que os benefícios da medida foram absorvidos principalmente pelas empresas do varejo nacional por meio do aumento de preços em bens de consumo.

“A alta dos preços no varejo nacional foi expressiva em meio à ‘taxa das blusinhas’. Dado que não houve correspondente efeito positivo na geração de emprego e renda para os trabalhadores destes setores, é possível inferir que a política contribuiu para o aumento da margem de markup de grandes corporações. Não houve o retorno social esperado”, avaliou André Porto, diretor-executivo da Amobitec.


Queda expressiva nas importações

Estima-se que o aumento da taxação para compras online internacionais gerou queda de 56% no valor importado para compras de até US$ 50.

A medida reduziu a demanda por produtos importados de menor valor no comércio eletrônico internacional, com impacto negativo especialmente sobre o consumo das classes de menor renda.

As classes C, D e E, mais sensíveis aos aumentos de preços e que, em geral, não viajam ao exterior, ficaram sem a capacidade de acessar produtos do exterior a preços acessíveis.


A metodologia da pesquisa

A análise utilizou metodologias econométricas e considerou dados públicos de diferentes bases oficiais, como Receita Federal e PNAD, de 2018 a 2025. Os pesquisadores compararam o comportamento dos setores antes e após a implementação da taxação.


O que dizem os economistas

Em entrevista, o economista Jason Vieira afirmou que a taxa teve um impacto negativo no bolso do consumidor e nos balanços das varejistas. “A taxa não teve efeito nenhum a não ser a proteção do varejo, mais nada. Mas ela não protegeu empregos; protegeu, na verdade, os ganhos do varejo. A promessa de proteger a indústria nacional não fez diferença nenhuma e, em relação aos empregos, os efeitos foram nulos.”

Jason destacou ainda que o e-commerce não é apenas uma tendência, mas um motor de produtividade global que atende localidades onde o varejo físico não chega. No entanto, a estrutura tributária brasileira atual cria distorções onde o ambiente digital é usado como “atalho” fiscal pelas próprias lojas físicas.


O outro lado: indústria defende a taxa

O debate não é consensual. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nota técnica afirmando que a “taxa das blusinhas” impediu a entrada de R$ 4,5 bilhões em produtos importados, ajudou a preservar mais de 135 mil empregos e quase R$ 20 bilhões na economia brasileira.

No início de abril, representantes da indústria, do comércio e do varejo divulgaram um manifesto a favor da manutenção da taxa, assinado por mais de 50 entidades. Segundo a Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex), no primeiro ano de vigência da taxação, o setor do varejo nacional teve crescimento de quase 6% nas vendas, acompanhado pelo aumento de 3,9% no número de vagas no comércio.


Governo considera revogar a medida

Internamente, o governo está dividido quanto à mudança. O presidente Lula se manifestou a favor da anulação do tributo. À Gazeta do Povo, o deputado Kataguiri disse que a possível reversão da taxa das blusinhas pelo governo Lula se dá “por conveniência em ano eleitoral”, afirmando que foi o próprio governo quem criou a medida.

O impasse revela a tensão entre proteger a indústria nacional e aliviar o bolso do consumidor — especialmente das famílias de menor renda —, em um cenário em que a inflação e o custo de vida seguem como temas centrais do debate econômico e político às vésperas das eleições de 2026.

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